Os Indiozinhos da Granja Guarani

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 1 - (O COMEÇO)

Estradinha Granja Guarani - Foto: Blog Trekk Brasil

Arnaldo Guinle não poderia ter escolhido melhor nome para identificar a fazenda de posse da sua família na divisa com o Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Inspirado no Guarani, o famoso romance de José de Alencar, ele batizou aquela vasta terra de Granja Guarani. Mergulhado na imensidão verde desse valioso resquício da Mata Atlântica, o bairro parece mesmo ter saído das páginas do mundo de Ceci e Peri.
Quem nasceu, vive ou morou na Granja Guarani tem realmente essa sensação do bairro repleto de alamedas, ou seja, ruas com arborização em ambos os lados. Árvores, muitas árvores de todas as espécies e tamanhos. Aos pés delas, uma rede de rios e riachos límpidos. Neste ambiente, uma profusão de animais de centenas de espécies, entre aves, mamíferos, roedores, e insetos, entre outros.
Nasci e morei no bairro até 1976, nos primeiros 15 anos de minha vida e, posso assegurar, nos horários em que não estava na escola ou em casa, sentia-me mesmo um indiozinho na vastidão verde da Granja Guarani. Entre um jogo de futebol e outro; partidas de bolinha de gude e pic esconde, a molecada da minha época fazia inúmeras incursões na mata fechada e, especialmente no verão, passamos mais tempo tomando banho nas cachoeiras da divisa com o Parque Nacional do que em casa.
Aprendíamos cedo com os mais velhos os caminhos de todas as trilhas da mata, de forma que nunca houve caso de criança perdida na floresta. Entrávamos no mato por vários motivos: para fazer cabanas, armar arapucas, caçar passarinhos, tatus e gambás, e colher frutas silvestres e um ou outro alimento que brotava na mata como abóboras, chuchu, taioba e caninha de macaco. Nos riachos, levantávamos as pedras para pegar caranguejos e, em rios de pequeno porte, nas margens, com um pouco de sorte, também pescávamos pequenos peixes e pitus com peneiras de pedreiro. De vez em quando entrávamos na mata, ainda, para balançar em enormes cipós que despencavam das árvores maiores, imitando Tarzan, o Rei das Selvas.
Mas, de todas essas atividades, certamente a que mais agradava os indiozinhos da Granja Guarani, era o banho nas águas geladas das cachoeiras que cortam o Parque Nacional. Mas isso  merece um capítulo à parte e fica para uma próxima oportunidade.

Cesar Rodrigues
Jornalista-Colaborador da AMAGG

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 2 - (AS CACHOEIRAS)

Dando continuidade ao cotidiano dos “Indiozinhos da Granja Guarani”, a forma que optamos para nomear os moleques (meninos e meninas, na verdade) da Granja e da Pedreira, nas décadas de 60 e 70,  hoje vamos falar sobre os banhos nas cachoeiras do Parque Nacional, a diversão predileta dos intrépidos curumins.
A  gurizada da Granja tem um leque enorme de opções para se banhar nas águas do Rio Paquequer que, nasce na parte alta do Parque Nacional, mais precisamente na Pedra do Sino,  e despenca em cascatas na divisa do parque com o nosso bairro para, somente lá embaixo se juntar ao Rio Preto, um afluente do caudaloso Rio Paraíba do Sul.
Nunca é demais lembrar que o Paquequer é cenário central no “O Guarani”, romance de José de Alencar que emprestou o nome ao nosso bairro. Na sua descida parque abaixo o nosso riozinho vai ganhando corpo e volume d’água, formando poços para o deleite da gurizada, principalmente no verão.
A primeira piscina natural próxima à Granja Guarani é o “Poço do Tarzan”. Mas, nesse aí, só entram os curumins maiores, porque o danado é tão fundo quanto assustador. A profundidade é tanta que o poço fica escuro, escondendo pedras no seu leito. Grandes rochas na sua lateral servem de trampolim para os corajosos moleques que resolvem se arriscar a mergulhar no escuro. Como a região desse poço fica em mata fechada, há muita sombra ao redor, o que parece deixar a fria água do Paquequer ainda mais gelada, mesmo no verão.  
Rio abaixo, chegamos no Poço do Mariozinho. Esse sim já é mais ensolarado e, consequentemente, mais confortável. Contudo, ainda não é território pra curumim pequeno. Um dos seus lados também é tomado por uma grande rocha de onde a molecada despenca em vôos de mais de 3 metros de altura.
Este poço é bastante interessante porque uma das suas pedras esta encaixada entre outras duas, mas, não chega a tocar o leito do rio. Por causa disso, os meninos e meninas mais corajosos, mergulham de um lado do poço, passam pelo “túnel” debaixo d’água para sair “cantando vitória” do outro lado, após essa arriscada investida uma vez que o espaço é pequeno para a manobra submarina.
Uma das extremidades deste poço também causava certo pânico nos curumins. É que antes de se precipitar para a próxima cachoeira, a água encontra um buraco e forma uma espécie de redemoinho. Os mais velhos diziam que se entrássemos nesse redemoinho seríamos engolidos pelo rio. Pelo sim pelo não, ninguém nadava por perto.   
Depois de uma grande laje de pedra, onde ao lado se encontra um belo carramanchão da antiga residência da família Guinle (a família loteadora da Granja Guarani), as águas do Paquequer, após formarem duchas no final deste paredão, enchem uma nova piscina natural, que os moleques da Granja Guarani chamam de “Poço do Meio”. Neste poço a principal atração é um grande muro colado à ele que cerca a antiga e citada residência dos Guinle. Como não podia deixar de ser, os curumins maiores escalavam esse puro e se jogavam no poço numa altura de mais de três metros.
Poucos metros abaixo fica o ponto preferido de banho dos indiozinhos da Granja Guarani. O nome oficial é Piscina Slopper, mais, os moleques chamam o lugar de “Poço de Baixo”. Esse certamente é o mais fotografado poço formado pelo Paquequer, porque fica ao lado da entrada principal do Parque Nacional e as águas passam embaixo de uma ponte onde os turistas podem apreciar a estupenda paisagem.
O “Poço de Baixo” é ideal para quem ainda não sabe nadar, pois tem uma parte rasa, ao lado de um banco de areia. A parte mais funda fica embaixo da correnteza de espuma formada pela força do rio. Esta piscina teve sua configuração alterada com um represamento das águas acima do poço.
Antes desse represamento, os moleques usavam uma escada em uma das extremidades do lugar para alcançar o que chamávamos de “muralha”. Deste muro, com também cerca de três metros de altura, os moleques voavam em incríveis saltos mortais no poço. Na década de 70, a inspiração dos saltos vinham dos mergulhos dos penhascos de Acapulco, no México, cujas competições assistíamos pela TV.
O repertório de saltos dos curumins no “Poço de Baixo” era bem variado, para delírio dos turistas que, da ponte ao lado da entrada no parque fotografam, aplaudiam e pediam novos mergulhos aos garotos. O salto de maior complexidade era o que chamamos de “canivete”, em que o moleque salta e, no ar, encosta as mãos na ponta dos pés, estica o corpo novamente e entra de cabeça na água.
Havia também o salto “anjinho”, fácil de fazer, porque bastava abrir os braços em forma de asa no meio do salto. Tinha, ainda, o “rabo de arraia”, em que o moleque pulava de frente, mudava a direção do corpo no ar e entrava no poço na posição contrária que pulou, espalhando a água com uma “chicotada” dos pés. Cambalhotas e saltos de costas também não faltavam.
Só considerávamos saltos perfeitos aqueles em que o moleque conseguia fazer todos os movimentos, mas, entrando na água com pernas e pés juntos. Nem precisa dizer que esta era uma brincadeira arriscada, pois, no fundo poço sempre há uma pedra. Invariavelmente um ou outro moleque raspava o corpo nessas pedras e deixavam a água sangrando. Um primo meu bateu a cabeça numa pedra e ficou com um desvio na coluna.
Por conta desse perigo, os pais dos indiozinhos não aprovavam a ida deles às cachoeiras, sem a presença de um adulto. Mas, ninguém segurava os curumins em casa, principalmente no verão. Em muitas casas, como na minha, a ida à cachoeira sem autorização valia uma surra de vara de marmelo na volta, além de outras repreensões.
E, não tinha como esconder a fuga para o banho no poço. Tudo denunciava a peraltice, desde a roupa molhada, o cabelo embaraçado e úmido, até a enorme mancha vermelha na barriga. Explicando melhor, essa mancha ficava no corpo porque, junto a quase todos os poços citados havia grandes lajes de pedra que ficavam literalmente fervendo no verão. Para compensar a água gelada, os moleques tomavam banhos de sol nestas lajes, muitas vezes de bruços, ou seja, o vermelhão era inevitável. Exposições ao sol mais prolongadas na laje viraram até desidratação em alguns moleques que dormiam nas pedras.
Além das cachoeiras, os curumins da granja adoravam mergulhos na piscina do Parque Nacional e em poços de bairros vizinhos. Isso fica para amanhã.

Cesar Rodrigues
Jornalista-Colaborador da AMAGG

------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 3 (INVADINDO O PARQUE)


Dando continuidade à saga dos Indiozinhos da Granja Guarani, ou mais precisamente ao cotidiano das crianças deste bairro nos anos 60 e 70, neste capítulo trataremos da “invasão” dos curumins na piscina da área do Parnaso – Parque Nacional da Serra dos Órgãos.
Além das cachoeiras, como vimos no capítulo anterior, os moleques da Granja Guarani gostavam também de se misturar aos turistas na piscina principal do Parque Nacional. Contudo, para chegar à essa piscina, como os curumins da Granja e da Pedreira nunca tinham dinheiro para pagar o ingresso no Parque Nacional, era necessário driblar os guardas do Parnaso em sorrateiras “invasões” da área ambiental. O “ataque” era deflagrado a partir de uma cerca de arame farpado que separava o parque do bairro, quase na altura do Quiosque das Lendas.
Após a invasão da cerca, era necessária uma arriscada travessia sobre o Rio Paquequer, em cima de uma escorregadia adutora de água, que ficava quase uns cinco metros de altura acima das pedras. Depois disso, era se embrenhar na mata e ficar à espreita. Quando os guardas davam as costas para patrulhar o ponto, os moleques saltavam aos bandos e se misturavam aos turistas em meio à área de piquenique do parque, repleta de mesas e cadeiras de pedras. Daí, até a piscina, era um piscar de olhos. 
Tentando segurar os intrépidos moleques, a direção do Parnaso, com o tempo, substituiu a cerca por um muro de mais de dois metros de altura, encimado por cacos de vidros. Tudo em vão, os curumins escalavam, quebravam os cacos e continuaram a “invasão” da mesma forma. Os pobres coitados dos guardas não conseguiam nos acompanhar, pois os curumins conheciam cada moita do parque, afinal aquele era o quintal da nossa casa. 
A piscina artificial do Parque Nacional abastecida com água natural de um dos riachos da Bacia do Paquequer é extremamente bela e muito bem planejada. Além do charme da ponte e da ilha ao centro, a área de lazer aquática foi pensada para crianças e adultos de todas as idades.
Um dos lados da ponte tem a água, no máximo, até os joelhos de um adulto, ou seja, ideal para quem não sabe ou está aprendendo a nadar. No outro lado, a água chega à cintura, algo perto de um metro de profundidade, para quem sabe nadar, mas ainda não está preparado para pontos mais profundos. 
Já a parte da frente da piscina tem profundidade de mais de dois metros e é destinada aos adultos. Neste ponto, um dos passatempos prediletos da molecada era vasculhar o fundo da piscina à procura de relógios, correntes, pulseiras, brincos, moedas e todo tipo de objeto que os incautos turistas perdiam em seus desastrados mergulhos. Quando o dono era descoberto, o objeto era devolvido, caso contrário, virava presente para a mãe ou o pai do moleque.
Ainda nesta parte mais funda da piscina do Parque Nacional, até início dos anos 70, havia um trampolim de madeira em cima de uma rocha em um dos seus lados. Não duvido nada que o trampolim tenha sido retirado pela administração do parque por causa das peripécias dos moleques da Granja Guarani. 
Mas, quem disse que os curumins da granja se contentavam com a monotonia das braçadas na piscina? O que os moleques queriam era “voar”, expressão que usávamos para os saltos nas cachoeiras e nas piscinas de lugares arriscados. Na falta do trampolim, as árvores ao lado da piscina eram escaladas às pressas, para que os guardas do parque não vissem a artimanha, e viravam ponto de partida para espetaculares saltos, como aqueles do “Poço de Baixo”, para o delírio de incrédulos visitantes do PNSO.  
Além da piscina do Parnaso, alguns curumins da Granja Guarani, de vez em quando, gostavam de mostrar suas habilidades um pouco mais longe do seu território e partiam em direção à Cascata dos Amores, perto do bairro do Alto, onde há também um belo poço natural. Neste poço, a maioria dos freqüentadores preferia escorregar no “tobogã” da cachoeira que deságua no poço. Já os indiozinhos da Granja, sempre ávidos por aventuras, descobriram que dava para saltar da rua que dá acesso Cascata dentro do poço. Mais uma vez, o show era certo para quem assistia as manobras. 
Mas, nem tudo era brincadeira na vida dos curumins da Granja Guarani. Para ter dinheiro para ir ao cinema, comprar um gibi ou mesmo para engrossar o orçamento familiar, os indiozinhos tinham que trabalhar desde muito cedo e ninguém reclamava. Assunto para o próximo capítulo.

Cesar Rodrigues
Jornalista-Colaborador da AMAGG

                                                                                                                                         Fotos: Acervo PNSO
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 4 - (O TRABALHO)

Dando continuidade à saga dos “Indiozinhos da Granja Guarani”, depois de relatarmos a relação dos
moleques com a vasta floresta que há no bairro; seus banhos de cachoeira; e as “invasões” à piscina do Parque Nacional, agora, vamos mostrar que os curumins também aprendiam a trabalhar bem cedo.
É preciso ressaltar que estamos nos referindo aos moleques cujos pais residiam no que vamos chamar de Granja Guarani proletária. Até porque, há no bairro uma parcela significativa de moradores das classes A e B que os filhos, por motivos óbvios não precisavam se sujeitar à rotina de trabalho dos seus vizinhos menos abastados.

Os curumins a que nos referimos são filhos de honestos trabalhadores da construção civil (pedreiros, pintores, eletricistas, carpinteiros, marceneiros, entre outros), do comércio, de profissionais autônomos (empregadas domésticas, jardineiros, etc) ou até mesmo de pequenos comerciantes da Granja Guarani.
Pois bem, salvo raras exceções, os pais dos “Indiozinhos” tinham dificuldades para cobrir as despesas da família naqueles duros anos 60, 70 e 80. Consequentemente não sobrava dinheiro para que as crianças pudessem ir a cinemas, parque de diversão, ou adquirir algum desejado brinquedo.
Mas, os moleques da Granja Guarani não eram acomodados e, desde cedo, buscavam várias fontes alternativas de renda. O dinheiro amealhado no trabalho ajudava no orçamento doméstico, na aquisição de objetos pessoais dos meninos e ainda eram aplicados em diversão típica de outras classes sociais.

Um dos “serviços” que mais agradava os moleques da Granja Guarani era o aluguel dos cavalos do “Seo Argemiro” ou “Seo Azimiro”, como os indiozinhos o chamavam. Ele era um senhor negro, magro, baixo, de fala extremamente mansa, que tinha no aluguel dos cavalos, uma complementação para o baixo salário de jardineiro no Parque Municipal.
“Seo Azimiro” tinha sempre cerca de 10 animais para aluguel, entre cavalos e jumentos para montaria e cavalos de charrete. Dava “emprego” para igual número de moleques que, na verdade, se divertiam muito mais do que trabalhavam naquele “bico” de final de semana. O ponto de aluguel dos cavalos era na Praça do Alto, de onde saíamos acompanhando turistas para pontos específicos como o Parque Nacional, a parte alta da Granja Guarani e a Granja Comary.
O bom de alugar os animais era que, além de ganhar uns trocados, os indiozinhos se divertiam bastante porque, qual moleque entre 12 e 15 anos que não gosta de galopes, trotes e a companhia sempre carinhosa de um cavalo? Só os jumentos eram mais arredios.
Além disso, no domingo à tarde, após o “expediente” os curumins ainda tinham a tarefa mais prazerosa que era “levar os cavalos para o pasto”. Os pontos de pasto eram no morro próximo ao Hospital São José e também numa planície no então longínquo bairro do Quebra-Frascos. Imagine a alegria dos moleques galopando da Granja Guarani até esses pontos distantes. A aventura era maior ainda porque a ida ao pasto tinha que ser no pêlo do animal, ou seja, sem o arreio, tarefa a ser cumprida só mesmo por quem tem DNA indígena. Antes de alugar os cavalos, entretanto, os moleques tinham que passar por um estágio de aprendizado alugando bodes que puxavam pequenas charretes infantis em volta da praça.

Outra atividade, esta nem tanto prazerosa, que rendia bons trocados para os moleques da Granja Guarani, era a de cortar a grama nos enormes quintais das casas dos ricos na parte mais alta do bairro. Não havia cortadores de grama naquela época e, a tarefa era bastante difícil porque tinha que ser feita com enormes tesouras de jardim. Fazia calos nas mãos, mas, valia à pena pois a recompensa era considerável.
Durante um bom tempo os meninos também faturavam um bom dinheiro vendendo pirulitos artesanalmente feitos pela Dona Isabel, esposa do “Seo Jazi”. Lembro até hoje daquelas bandejas de madeira cheias de furo onde eram colocados os doces em forma de guarda-chuva fechado. O tal do pirulito era caramelizado e a dona Isabel os fazia em enormes tachos de metal bronzeado, provavelmente cobre. O danado era doce ao extremo, mas, sempre vendíamos tudo nas cachoeiras do Parque Nacional ou na Praça do Alto.
Nos anos 70 também era comum os meninos juntarem garrafas, metal e outros “ferros-velhos” para vender para uma pessoa que aparecia esporadicamente na Granja Guarani. Quem preferisse poderia trocar os objetos por pintinhos de galinha. A troca não era um bom negócio pois a maioria das aves morria dias depois, principalmente porque não sabíamos alimentá-las direito.

Também esporadicamente era possível faturar algum trocado vendendo limões na Várzea. Os moleques era contratados por revendedores que separavam cerca de um quilo do produto em saquinhos amarelos em forma de rede. Dava muito trabalho porque tínhamos que andar quase todo o centro comercial da cidade, da Praça da Matriz de Santa Tereza até a Rodoviária.
Anos mais tarde, com a implantação da Feirinha do Alto, curumins da Granja Guarani passaram a fazer “bicos” guardando vagas de estacionamento para carros dos turistas. Alguns também se enfiavam dentro de pesadas fantasias de animais no trenzinho que animava os visitantes. No verão, era comum, ainda, os indiozinhos maiores serem recrutados por sorveterias da cidade para vender picolé no carrinho.

Como os moleques gastavam o dinheiro que ganhavam trabalhando? Assunto o próximo capítulo da saga dos “Indiozinhos da Granja Guarani”.

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG
                                                                                                       Fotos cavalo e trenzinho: Blog Sem Destino

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 5 - (A DIVERSÃO)

No capítulo anterior relatamos como os moleques da Granja Guarani começavam a trabalhar bem cedo para poder ganhar dinheiro, ajudar a família e também ter um pouco de diversão, além dos banhos nas cachoeiras e incursões na mata. Passamos agora a enumerar como os curumins gastavam esse dinheiro.
Os moleques gostavam muito de ir ao cinema principalmente nas matinées do Cine Arte, no Alto, mais perto de casa ou nas sessões à tarde do Cine São Miguel, na Várzea, onde sempre passavam filmes de bang bang (ou faroeste), os preferidos dos meninos, Não íamos aos cines Alvorada e Vitória, porque quase sempre os filmes eram só “para maiores de 18 anos”, como alertavam os cartazes.

Os moleques também adoravam ir ao Parque de Diversão que ficava na reta, logo depois da esquina da Padaria Império, onde os brinquedos prediletos eram o “Chapéu Mexicano”, bem ao gosto dos curumins da Granja que também viviam voando nos cipós de altas árvores no bairro; e ainda os carrinhos do “Bate-Bate” pela sensação de se dirigir um carro de verdade.
A barraca de “Tiro ao Alvo” igualmente era endereço certo dos moleques que saíam dela cheios de brindes, não sem antes pregar providenciais “percevejos” nas rolhas de cortiça que eram atiradas pelas espingardas de pressão. Com a “trapaça” o projétil ficava mais pesado e não saia do alvo da mira. Curumins mais velhos tentavam a sorte da barraca das argolas, cujos alvos prediletos eram as garrafas de batidas, que eram consumidas no ônibus, na volta para casa.
Outro lugar onde os meninos deixavam seus trocados era no Parque Regadas. Neste ponto, havia naqueles tempos uma concentração de diferentes casas de brinquedos eletrônicos, os chamados “Fliperamas”.
Não precisa nem falar que os moleques, sempre com pouco dinheiro, aprontavam inúmeras artimanhas para jogar várias vezes na máquina com a mesma ficha, valendo, inclusive, amarrá-la com um fio de nylon e puxá-la de volta quando o jogo estivesse por terminar. Funcionava, até que o dono do “Fliper” descobrisse a tramóia e, quando isso acontecia, os moleques eram nada gentilmente convidados a se retirar do estabelecimento. De vez em quando sobravam uns cascudos, mas, no outro final de semana estavam todos lá de novo. 
Quem não queria, ou não tinha dinheiro para ir para a Várzea, gastava os trocados na Granja Guarani mesmo. Nesse caso, o local predileto era no andar de cima dos fundos do bar do “Seo Zé Nabo”, hoje Bar do Kiko, seu filho. Alí havia uma disputada mesa de Totó (ou Pebolim), onde os moleques gastavam muitas fichas às escondidas. É que o dono do bar tinha receio de que alguma autoridade flagrasse menores de idade jogando no lugar, o que, segundo ele, era proibido.
Ilegal também era, e é, o consumo de bebidas por parte do moleques do bairro. Mas, até por influência dos mais velhos, que viviam dependurados nos balcões dos diversos botequins da Granja Guarani, os indiozinhos também gastavam uns bons trocados principalmente com a Cachaça Coquinho e com batida de Amendoim.
Também era proibido, e praticamente inevitável, a iniciação no cigarro e, muitos moleques começavam a fumar bem cedo. Lembro de uma vez que eu, meu irmão Arnaldo, meus primos Ivan e Sidnei, além do amigo Valdo compramos um maço de Kent sem filtro (que tinha uma embalagem verde), e subimos numa árvore para fumar escondidos. Como era a primeira vez que todos tragavam, o resultado foi que todos sem exceção ficaram tontos e despencaram do galho. Sorte que a queda não foi de muito alto e havia um riacho embaixo que amorteceu o tombo.
Lógico que os moleques também guardavam alguns trocados para comprar doces nos bares e picolés no verão. Os curumins gostavam também de comprar um delicioso doce “Mil Folhas” que era vendido em um trailer, ao lado da quadra de futebol da Praça do Alto. Mas, isso era só de vez em quando porque o dito cujo, lembro bem, era tão caro quanto gostoso.
Além de gastar dinheiro com cinema, parques de diversão, fliperamas, bebidas e cigarros, indiozinhos mais espertos faziam economia para comprar coisas pessoais. E, o sonho de consumo, não poderia ser outro senão a bicicleta. Naqueles tempos o mercado era disputado apenas pela Caloi e Monark.

Mas, raramente os moleques conseguiam juntar dinheiro para comprar bicicleta nova. A saída era adquirir uma usada em duas bicicletarias que alugavam, consertavam e vendiam bicicletas nas proximidades da Escola Ginda Bloch. Dependendo do modelo comprado, era comum os moleques virarem o guidão de cabeça para baixo para imitar os guidões das motos.  

No próximo capítulo, o lado “capetinha” dos Indiozinhos da Granja Guarani. Os moleques aprontavam demais...

Cesar Rodrigues
Jornalista-Colaborador da AMAGG

--------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 6 - (AS TRAVESSURAS)

Até aqui a saga dos “Indiozinhos da Granja Guarani” mostrou o quanto os moleques viviam em harmonia com a exuberante natureza do bairro entre os anos 60 e 80. Mostramos também o quanto os curumins eram responsáveis porque, desde cedo, aprendiam a trabalhar sem reclamar. Mas, moleque é moleque e os indiozinhos adoravam aprontar travessuras, umas mais sérias, outras absolutamente perdoáveis. A natureza continua até hoje dominando o cenário da Granja Guarani, mas as peraltices atuais não fazem frente às estripulias dos guris naquele tempo.
O espírito de aventura dos indiozinhos, aliada à falta de consciência ambiental, levava os moleques a cometer, na minha opinião, talvez o seu maior pecado: matar passarinhos. A Granja e a Pedreira eram, e continuam sendo até hoje, reduto de dezenas de espécies diferentes de aves. Com isso, passarinhos como sabiá-preta, sabiá-laranjeira, sanhaço, sairinha, rolinha, trinca-ferro e coleirinhos, entre muitos outros, não escapavam da mira certeira dos moleques.

A caçada era com a Atiradeira ou Estilingue, como queiram. A arma era feita com gancho preferencialmente de goiabeira, por ser mais resistente e com tiras de borracha recortadas de câmaras de ar de bicicletas. De vez em quando aparecia um moleque com atiradeira feita com borracha de uso de hospitalar, que eram presente de algum parente que trabalhava na área médica ou devidamente surrupiada numa das muitas vezes que os moleques visitavam o Pronto-Socorro do Hospital São José ou da Casa de Saúde para tomar vacina ou cuidar de algum ferimento.
A Atiradeira feita com a borracha hospitalar ou “liga de soro”, como era mais conhecida, era mais resistente e dava mais velocidade e precisão às “balas”. A bala, no caso, era a pedra atirada contra os pássaros no alto das árvores. A cada pássaro morto, o moleque fazia uma marca com um corte circular na base do gancho do estilingue.
As caçadas eram organizadas: os moleques menores, que ainda não sabiam atirar, eram encarregados de no caminho procurar as melhores pedras e colocar em um bornal. Os curumins menores acompanhavam de perto o atirador e ficava municiando-o com as “balas”. O mais difícil era manter o silêncio no meio do mato pra não espantar os passarinhos.

As caçadas rendiam mais nos dias chuvosos. Só escapavam das baladas os beija-flores, as cambaxirras e as andorinhas. Rezava a lenda que matar qualquer um desses pássaros era pecado e passaporte certo pro inferno, além do que o azar iria acompanhar o infeliz em todas as outras incursões que fizesse na mata. Fora isso, o bornal que ia cheio de pedra voltava lotado de passarinhos que os moleques mesmo depenavam para as mães limparem antes de fritar na frigideira. Neste ponto, ainda bem que hoje o computador distrai a molecada.  
Pequenos “furtos” eram rotina no cotidiano dos indiozinhos da Granja Guarani e, roubar frutas no quintal do vizinho era o mais comum destes delitos. A vítima predileta era o “Seo” Antonio Verdureiro, caseiro de uma pequena chácara em próximo do Largo do Machadinho. Neste local, ele mantinha um belo pomar e uma grande horta. As frutas e verduras que cultivava eram vendidas em uma carroça puxada por cavalo e que abastecia todo o bairro.
Pois bem, entrar no pomar do “Seo” Antonio não era tarefa das mais fáceis para os curumins. O lugar era cercado com arame farpado e também com uma “cerca viva” de pequenos cedros. A fruta predileta no pomar era a mixirica verde carioca, mas, o que dava pra enfiar no bolso era levado. O assalto tinha que ser rápido, porque “Seo” Antonio parece que adivinhava a hora da invasão e aí não economizava chumbinhos da sua espingarda. Nunca um moleque foi ferido, mais porque o verdureiro era uma excelente pessoa do que péssimo atirador.

Contudo, “Seo” Antonio foi vítima do ato mais grave cometido pelos moleques dos anos 70 (a exceção, é claro, das caçadas de passarinhos). O caso foi batizado pelos indiozinhos de “O Assalto ao Trem Pagador”, em alusão à um conhecido filme nacional da década de 60. O “trem”, no caso foi a carroça do gentil verdureiro.
Explicando melhor: “Seo” Antonio costumava guardar em duas caixas de madeira fixadas nas laterais da sua carroça, todo o dinheiro que arrecadava com a venda das frutas e verduras. Isso era feito na hora da venda e, para azar dele, os moleques assistiam à cena. Numa noite, os curumins esperaram o homem dormir, invadiram a chácara e limparam os cofres improvisados do verdureiro.
No outro dia, de bolso cheio, os moleques fizeram várias visitas aos butecos do bairro para comprar doces e refrigerantes. Quer dizer, foi uma moleza para o “Seo” Antonio descobrir quem eram seus algozes. Ele foi de casa em casa avisando aos pais dos pequenos larápios e isso rendeu boas surras de chinelo e de vara de marmelo nos curumins. “Seo” Antonio não teve o dinheiro de volta, mas, ganhou uma trégua dos moleques que, por pelo menos umas duas semanas, não mais entraram no seu pomar e nunca mais passaram perto da carroça.
Além desses pequenos delitos, os indiozinhos cometiam estripulias mais amenas, como por exemplo, ir pescar à noite em locais proibidos do Lago do Comary, tendo sempre que fugir dos vigias;  apertar campainha dos vizinhos e se esconder; pegar os cavalos do “Seo” Argemiro e do Grilho para passear, sem consentimento dos donos; desligar os relógios de luz dos moradores ricos da pedreira; atirar ovo podre de cima do mirante nas pessoas que passavam na Estrada do Arakem; montar nos bodinhos de aluguel do Batista fazendo-os de cavalos; dar nós nas calças dos peões de obras que trabalhavam nas casas dos condomínios; tomar banho de piscina escondido nas casas dos veranistas e saiu correndo do caseiro; e à noite, entrar escondido nos bailes no comércio da Dona Maria Maura, escapando pelo mato quando chegava os agentes do “juizado de menores”.
No próximo capítulo, Lobisomens e outros seres sobrenaturais assustavam os indiozinhos da Granja Guarani...Confira.

Cesar Rodrigues
Jornalista-Colaborador da AMAGG

--------------------------------------------------------------------------------------------------------


OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 7 - (ASSOMBRAÇÕES -1-)

Indiozinho que se preza não tem medo de nada...ou pelo menos quase nada. E os moleques da Granja Guarani são mesmo destemidos. Nas décadas de 60 e 70, como já vimos, os curumins viviam um bom tempo dentro da vasta floresta que abraça todo o bairro até hoje. Portanto, era muito comum se deparar com aranhas, cobras, gambás, enfim, animais que até poderiam assustar, mas isso não acontecia. Entretanto, seres muito estranhos causavam verdadeiro pânico nos curumins e também nos adultos, como veremos a seguir.
Vamos começar com o Lobisomem. Entre os anos 60 e 80 a granja sempre teve um. E não era difícil descobrir qual o morador que, nas sextas-feiras com noite de lua cheia, se transformava no enorme bicho que atacava cavalos e cachorros e espalhava horror nas ruas, pequenas vielas e servidões do bairro.
Os indiozinhos não tinham dúvida. Nos anos 60 e 80, o lobisomem era o “Seo” Xandico e, nos anos 80, quem se transformava em um grande lobo era o “Seo” Vitalino. Lógico que ninguém nunca fotografou ou filmou a transformação, mas, esses dois personagens de fato eram mesmo muito sinistros.
O Xandico era um senhor branco, magro, alto, de cabelos brancos mesmo quando ainda não era velho e morava na rua que saia da escolinha e entrava no centro do bairro, onde hoje é o início da Rua José Bonifácio. Ele também tinha muitos pelos no braço, no dorso das mãos e nos dedos, além de grandes sombrancelhas quase caindo sobre os cílios dos olhos que pareciam ser claros, verdes ou azuis.
Só esse aspecto físico já contribuía muito para recair sobre o “Seo” Xandico a desconfiança de que ele era o Lobisomem da Granja. Além disso, o velho era muito desconfiado, seu barraco era envolto por muito mato alto, ele não falava com ninguém e pouco era visto na rua de dia. Nos poucos contatos que molecada tinha com ele, o velho exalava um forte odor, típico de quem não era adepto de banhos, mesmo os semanais, como era comum naquela época.
Seo Xandico também nunca foi visto na Capela católica do Imaculado Coração de Maria, na Granja e nem na Igreja de Santo Antonio, no Alto, mesmo na grande festa do santo, em junho. Portanto, ele não devia ser muito religioso. A molecada não tinha dúvida (alguns adultos também) e decretaram: “O lobisomem é o Seo Xandico”. Como não falava com ninguém no bairro, o velho não desmentiu.
Já nos anos 80, o lobisomem da vez era o Vitalino. Esse também era muito estranho. Andava com quatro relógios no braço e cara de poucos amigos. Era branco, magro e alto, cabeludo e barbudo. A exemplo do “Seo” Xandico tinha hábitos estranhos, não conversava com ninguém e olhava ameaçadoramente para os indiozinhos da Granja Guarani.
E o que os lobisomens faziam que assustavam tanta gente? Nenhuma pessoa foi ferida pelo grande lobo, mas, sobram histórias de moradores que juram ter ficado frente a frente com o bicho nos becos do bairro em noites de lua cheia. Contavam que na escuridão só viam o olho do bicho brilhando, e um vulto grande de quatro patas peludo feito cachorro, mas quase do tamanho de um cavalo.
Com medo, quem encontrava a fera no meio do caminho, disparava correndo em sentido contrário. O infeliz que dava de cara com o lobisomem dizia no dia seguinte que foi seguido pelo bicho que rosnava alto feito cão bravo. Para escapar, contava que teve que dar várias voltas no bairro, entrando e saindo de servidões, até se livrar da perseguição do feroz animal.
O lobisomem também atacava gatos e cachorros em vários pontos da Granja Guarani, além de devorar galinhas e patos de criação dos moradores. Outra vítima freqüente do bicho eram os cavalos do “Seo” Argemiro que dormiam em um grande quintal gramado acima da casa do dono.
De vez em quando, de fato, galinheiros apareciam destroçados, gatos e cachorros amanheciam mordidos em várias ruas da Granja e, coincidência ou não, sempre depois de uma noite de sexta-feira. Os cavalos também apareciam com ferimentos estranhos na altura das patas, das coxas e no pescoço. Os cavalos ainda sobreviviam, mas, muitos cães e gatos morreram misteriosamente e dos frangos e patos só ficavam as penas.
Também em noites de lua cheia, por diversas vezes, os moradores ouviam barulho estranho de algo se roçando na parede de suas casas. Como muitas das moradias eram de madeira ou pau-a-pique naqueles anos, também era possível se ouvir com clareza a respiração ofegante do bicho que dava voltas e voltas em torno da casa.
Uma vez isso aconteceu na minha casa. Meu pai tinha como hobby a caça (que naquele tempo não era tão proibido) e, por isso, mantinha em nossa residência uma garrucha e uma espingarda, ambas de dois canos. Na noite que o lobisomem foi tirar o nosso sono, nosso pai estava trabalhando no Rio de Janeiro. Corajosa, minha mãe me deu a garrucha e ficou com a espingarda em uma de suas mãos, na outra, carregou o terço de reza.
Realmente algum bicho bufava e dava voltas na nossa casa, além de fazer muito barulho em um bambuzal que tinha no nosso quintal. Minha mãe e eu fomos para uma das janelas da casa e, após alertar uma vizinha que tinha algo de estranho em nosso quintal, ela gritou pro bicho: “seja o que for apareça agora. Se for gente tenho bala na espingarda. Se for bicho tenho a força do terço e do Nosso Senhor. O sangue de Cristo tem poder!”
Seja lá o que for, depois da valentia de Dona Maria e do seu pequeno curumim, o silêncio reinou em volta da nossa casa. No outro dia de manhã fomos olhar o quintal e havia mesmo algumas marcas estranhas no chão de terra batida, e o “Seo” Argemiro, que era nosso vizinho, também contou que seus cachorros e cavalos também não tiveram uma noite tranqüila.

Além de lobisomens a Granja tinha mula-sem-cabeça, duendes, serpentes que saltavam das paredes do Mirante, assombrações e até extra-terrestres e que assustavam os indiozinhos e também seus país. Isso fica para o próximo capítulo.  

Cesar Rodrigues
Jornalista-Colaborador da AMAGG

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 8 - (ASSOMBRAÇÕES -2-)

No capítulo anterior vimos como os “indiozinhos” ficavam apavorados com os lobisomens que dominavam as noites enluaradas de sexta-feira na Granja Guarani. Mas, não eram somente as corridas desenfreadas com o grande lobo no calcanhar que faziam os moleques do bairro tremer.
Mulas sem cabeça, duendes, curupiras e até extra-terrestres rondavam o imaginário da gurizada. Antes dessas novas histórias de arrepiar, é preciso ressaltar sempre que a Granja é cercada de mato por todos os lados. Aliado a isso, embora o bairro tenha sido pioneiro em iluminação, porque Carlos Guinle, o loteador da Granja, implantou na sua fazenda uma usina de energia, a eletricidade era luxo de poucas casas, portanto, as ruas ficavam às escuras.
Esse cenário: mato, escuridão, bichos e riachos em todo canto é perfeito para o surgimento de uma série de fenômenos que assustavam as crianças e muitos adultos.
A mula-sem-cabeça não era presença constante na Granja, na verdade, aparecia pouco e sempre na entrada do bairro da Pedreira. Ela assustava mais à distância, colocando medo em quem precisava alcançar a parte alta do bairro. Empinava sua “cabeça de fogo” na frente de quem subia pelo caminho de lajota de pedra onde hoje é a Rua José Clemente Pereira e desaparecia quando chegava na esquina com a Alameda Curupiras.
E por falar em Curupira não é à toa que esta alameda tem esse nome, na parte alta da Granja Guarani, que também chamamos de Pedreira. Ate o início dos anos 80, a parte alta do bairro tinha poucas residências. Havia muito mato, mas, já existiam as ruas atuais que ainda continuam sendo engolidas por esse recanto magnífico da Mata Atlântica.
O Curupira era visto com alguma freqüência pelos moradores destas grandes alamedas da Pedreira até as proximidades com o Mirante da Granja Guarani (Quiosque das Lendas). Mas, ele não fazia mal, apenas assustava quem tinha intenção de entrar na mata para caçar, pois, como se sabe, o curupira também é um curumim, mas, com os pés virados para trás, que é para enganar os caçadores. Ele é um protetor da floresta. Assustava mais os adultos que entravam no mato com arma de fogo. Os moleques que usavam estilingue não eram incomodados pelo curupira.
Os moleques da Granja também tinham medo de passar sozinhos em frente ao Carramanchão, não só por causa do Curupira. É que uma das gravuras do Quiosque, que retrata a lenda “Como a noite apareceu”, traz uma enorme serpente se postando ameaçadoramente na frente de dois índios. Os mais velhos diziam que quem passasse pelo mirante poderia ser atacado pela enorme cobra que saltava dos azulejos para abocanhar quem invadia seu território.
Na parte alta da Granja Guarani, bem no final da Alameda do Arakém, havia uma casa mal assombrada. Ela pertencia à uma família do Rio de Janeiro e vivia a maior parte do tempo fechada. Meus pais moraram algum tempo neste lugar, trabalhando como caseiros. Minha mãe conta que as portas abriam e fechavam sozinhas, assim como as luzes se acendiam e apagavam sem ninguém tocar no interruptor.
Nesta casa, ela também ouvia vozes do além e, no jardim, contava que os balanços e uma gangorra se mexiam sozinhos. Ainda no jardim, Dona Maria conta que, certa vez, apareceu um pequeno duende, de menos de 20 centímetros de altura, vestindo fraque e cartola. O tal duende permaneceu por cerca de uma semana estático em cima do galho de uma roseira e era visto, inclusive, de dia.
Impressionada, minha mãe chamou um vizinho para conferir se aquilo não se tratava de uma miragem. O vizinho era um senhor umbandista e se impressionou com o tal duende. Apesar de estar acostumado a lidar com o lado espiritual bastante acentuado na sua religião, o tal vizinho, segundo minha mãe, não só viu como também não soube explicar quem era o que fazia ali o pequeno e misterioso visitante da casa mal assombrada.  
Do início até meados dos anos 80, os moleques da Granja Guarani também se assustaram muito com a história de uma nave extra-terrestre que havia pousado na já desativada Pedreira, na parte alta do bairro. Nesse tempo, foi registrado o sumiço de muitos animais de estimação como bodes, cachorros e gatos naquela parte do bairro. Segundo os moradores, o desaparecimento dos bichos só podia ser coisa dos ETs. Pelo sim, pelo não, os moleques e também os adultos evitavam circular à noite nas proximidades dos “canhões” da Pedreira, onde teria pousado o disco-voador.

No próximo capítulo vamos contar um pouco sobre como os indiozinhos aprendiam a ler e escrever. Os primeiros anos na escolinha do bairro serviam de base para os estudos nas escolas dos bairros do Alto e Várzea.

Cesar Rodrigues
Jornalista-Colaborador da AMAGG

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 9 - (A ESCOLINHA)

Desde o final dos anos 60 as primeiras letras que os indiozinhos da Granja Guarani aprendem são ensinadas na carinhosamente chamada “Escolinha” do bairro e que tem, agora, o nome de Escola Municipal Professor Sylvio Amaral dos Santos. Ela foi construída estrategicamente em um terreno escarpado entre a Granja e a Pedreira, o que facilita o acesso dos moleques tanto da parte baixa como da parte alta do bairro.
Nossa escolinha mantém até hoje uma característica bastante peculiar: talvez seja a única unidade de ensino da cidade que pouco ou nada tem de área de lazer e, o único espaço livre do terreno é ocupado por grandes pedras. Problema nenhum para os curumins, afinal, a pedra faz parte do universo dos moleques do bairro e as rochas da escola são objetos de diversão.

No princípio, a escolinha tinha apenas duas salas de aula; uma sala de diretoria; um pequeno almoxarifado com uma minúscula cozinha e banheiros. Sem espaço para crescer, do final dos anos 60 até hoje, essa estrutura foi muito pouco alterada. Em compensação, a escola sempre atendeu às metas educacionais e hoje é referência em ensino fundamental no município, com um bom índice na avaliação do Ideb.
No final dos anos 60 e início dos anos 70 eram apenas duas ou três professoras na escolinha. Uma delas, a Professora Márcia, era bastante especial e logo ganhou a atenção dos mol
eques. Não era para menos, ela era bastante atenciosa, alegre, educada e bonita, do tipo de beleza que realmente agradava os curumins. Parecia que a professora também dera descendente indígena, pois era bem morena e com longos e finos cabelos pretos quase até a cintura. 
Naquele tempo os indiozinhos só podiam ingressar na escola quando completasse 7 anos. Mas, alguns com mais sorte, como é o caso desse narrador, já entravam na escolinha sabendo ler e escrever. A alfabetização, no meu caso e de muitos outros curumins, veio antes, de dentro de casa, com zelosas irmãs mais velhas que nos abriam os seus livros. Os moleques também se interessavam muito por gibis (Super Homem, Batman, Fantasma, Capitão América, Rex, toda turma do Walt Disney e muitos outros) e isso facilitava o aprendizado em casa.
Além disso, a direção da Escolinha da Granja Guarani tinha um método infalível para estimular os curumins que chegavam para aprender ler e escrever: todo final de ano havia premiação para os melhores da escola. Quem se destacava ganha pequenas medalhas de “Honra ao Mérito” que acreditávamos ser “banhadas em ouro”, mas que em casa, meses depois, perdiam o intenso brilho amarelo. Junto com as medalhas os primeiros colocados, aqueles que tinham as maiores notas das classes, ganhavam matérias didáticos de presente como livros de desenho para pintar, caixas de lápis de cor e, os pequenos estojos de plásticos com as cobiçadas canetinhas hidrocôr.  
Não ficávamos muito tempo ali porque a escolinha, naquela época, só tinha turmas até o terceiro ano primário. Daí em diante, o destino era quase sempre o mesmo para todos os indiozinhos da Granja, o pomposo Colégio Estadual Euclides da Cunha, no bairro do Alto.
A mudança de escola, lá em meados dos anos 70, significava também uma drástica mudança de hábitos na vida dos indiozinhos da Granja Guarani.
A nova escola exigia um uniforme que nossos pais muitas vezes tinham dificuldade para comprar, principalmente se a prole na escola fosse grande. Lembro que o fardamento do Euclides era uma camisa de mangas longas branca com short ou calça azul. O detalhe é que em cada ombro da camisa havia uma alça que ganhava fitinhas azuis de acordo com a série que o moleque estava. Terceira série, três fitinhas; quarta série, quatro fitinhas; e quinta série, cinco fitinhas.
O curumim aqui teve problemas para explicar a um adulto o que fazia com uma camisa com cinco fitinhas de cada lado, quando estava na quinta série. Parecia um pequeno general com tantas “condecorações” nos ombros. Hoje acho que isso era coisa dos militares que haviam assumido o poder no país, pois os uniformes pareciam mesmo “militarizados”.
O duro era manter o danado do uniforme limpo. É que os moleques chegavam bem antes do início das aulas e, todo santo dia, corriam feito doidos atrás de uma bola cinza de borracha na quadra do Alto, que fica a poucos metros da escola. Mesmo o time que jogava sem camisa, na hora de colocar o uniforme tinha dificuldades por causa do excesso de suor. Os pés, então, que vestiam Kichute, Bamba ou Conga ficavam com um chulé insuportável.
O colégio era enorme, mas, bastante impessoal, porque abrigava alunos de vários bairros próximos do Alto e que quase nunca se viam. De toda forma, era muito bom estudar lá porque, para um curumim de cerca de 10 anos sair da Granja Guarani e ir para o Alto, sempre à pé ou de bicicleta, naqueles tempos, isso, por si só, já era um aventura. Só não gostamos muito em 1974 quando o governo inventou uma tal de 5ª série de admissão, para dar início a fusão do ginasial com o colegial. Na prática, perdemos um ano nessa fusão.

A partir do Euclides da Cunha, muitos indiozinhos, infelizmente, paravam de estudar para começar a trabalhar firme e ajudar no parco orçamento doméstico de suas famílias. O próximo passo de quem continuava nos estudos normalmente era a Escola Ginda Bloch. Essa escola que até hoje é referência, realmente era fenomenal. Assunto para o próximo capítulo.

Cesar Rodrigues
Jornalista colaborador da AMAGG

Fotos: O globo, Internet e educanareal.blogspot.com

--------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 10 - (ESCOLA GINDA BLOCH)

Continuando a contar como se dava o processo educacional dos “Indiozinhos da Granja Guarani”, hoje, reservamos um capítulo especial ao Colégio Ginda Bloch, que era a grande meta dos moleques do bairro, após a passagem pelo Colégio Euclides da Cunha. O Ginda merece o destaque por ser uma escola absolutamente diferenciada das demais naquele início dos anos 70.
O uniforme da escola era impecável: Camisa Branca (de manga curta, no verão e longa, no inverno) com golas e mangas azuis e um emblema salvo engano com uma coruja do lado esquerdo do peito, encimado pelo nome da mãe de Adolpho Bloch, e embaixo do emblema duas listas azuis desciam até a cintura. A calça era xadrez cinza. Depois de ter passado pela Escolinha da Granja (Sylvio do Amaral) e pelo Euclydes da Cunha, vestir o belíssimo uniforme do “Ginda” dava orgulho aos curumins da Granja Guarani

O orgulho não era para menos. Estamos falando do ano de 1973 ou 74. O colégio, uma obra prima do arquiteto Oscar Niemeyer, feito sob encomenda do amigo Adolpho Bloch em memória da mãe de um dos maiores gráficos e empresários de comunicação que este país tinha nos anos 70 (dono das revistas Manchete e Cruzeiro), era realmente impecável. Visto de cima, as linhas do Ginda Bloch lembram materiais escolares. O que eu mais gostava era o formato do auditório que, com rampas de concreto sobrepostas em círculos, parece um apontador de lápis, e, é claro, não era páreo para as escaladas dos moleques.
Os corredores do prédio eram todos em chão de mármore; as salas de aula tinham o lado externo em paredes de vidro; as portas das salas eram em pesadas madeiras maciças, com maçanetas bronzeadas. Pisos de madeira impecavelmente encerados serviam de base para quase todos os ambientes do colégio. Um grande quadro óleo sobre tela de Dona Ginda Bloch dava as boas vindas aos visitantes logo na recepção da escola. Realmente um luxo! O corpo docente acompanhava o elevado padrão das linhas arquitetônicas do prédio.
Oscar Niemeyer, arquiteto do Ginda Bloch, o mesmo que projetou Brasília 
Conseguir estudar no Ginda Bloch não era tarefa das mais fáceis, pois sobravam interessados e faltavam vagas, uma vez que a escola tinha somente cinco salas de aula. Para a sorte da molecada do bairro que gostava de estudar havia uma espécie de vestibular para alunos de baixa renda. Dependendo da colocação na prova, o prêmio era estudar no Ginda Bloch sem custos adicionais, a não ser o do espetacular uniforme.
Este curumim aqui fez a prova e, ao final dela, a diretora olhou para mim e perguntou: “Mas você não é o “Birruguinha” da Granja Guarani?”. Nem precisei responder e ela já emendou: “A vaga é sua!” Só mais tarde soube que minha “fama” de bom aluno, devorador de medalhas de “Honra ao Mérito” nos finais de ano, havia ultrapassado as fronteiras da escolinha da Granja e do Euclydes da Cunha. Fui um dos primeiros da Granja a estudar nesta magnífica escola e, ainda bem, não único. O exemplo foi seguido por vários colegas nos anos seguintes.
Adolpho Bloch, empresárioque doou a escola para a cidade
Quem estudava na parte da manhã, tinha que acordar cedo, por volta das 06h00. Para chegar ao Ginda dava uma boa caminhada. A saída do bairro era por um estreito caminho de terra em meio à um matagal que misturava eucaliptos e pinheiros, entre outras árvores menores, que alcançávamos, logo depois de passar pelo Armazém do “Seo” Fagundes. Na saída do bairro, antes de chegar ao alto, usávamos como atalho o caminho que apelidamos de Zigue-Zague, passávamos por cima de um riacho em uma bucólica ponte de madeira e alcançávamos a atual Rua Sebastião Lacerda, atrás do Colégio São Paulo, que termina exatamente na Praça Nilo Peçanha, bem em frente ao Colégio Ginda Bloch.
O esforço valia à pena porque o nível de ensino naquele lugar era realmente muito bom e, sei, continua sendo até os dias atuais. Para se ter uma idéia do rigor dos estudos, lembro de uma professora de inglês (que não me recordo o nome), bastante simpática, já idosa, que era britânica e que desde o momento em que entrava na classe, permitia somente o uso da língua inglesa no recinto. O aluno tinha que se virar para tirar suas dúvidas em inglês. Carinhosa, a professora ensinava o curumim quantas vezes fosse necessário determinada oração.  
Hoje, em virtude da importância arquitetônica da estrutura projetada pelo mestre Oscar Niemeyer, merecidamente,  o Ginda Bloch está no rol dos prédios tombados em Teresópolis.
No próximo capítulo vamos começar a contar algumas histórias de moradores da Granja Guarani que marcaram o cotidiano dos nossos indiozinhos.

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG

--------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 11 (BRINCADEIRAS DE RUA-1-)

Entre os anos 60 e 80, os moleques da Granja Guarani, só ficavam mesmo dentro de casa se estivessem doentes ou em dia de muita chuva. Caso contrário, os indiozinhos dividiam seu tempo entre as incursões na mata, nas cachoeiras durante o verão, ou ficavam perambulando pelas ruas do bairro. Naquela época não havia qualquer problema de se ficar fora de casa, pois não havia perigo nas ruas.
O bairro sempre teve como característica a forte ligação entre as famílias, com todos se conhecendo desde criança. Além desse aspecto familiar, a Granja tinha pouco movimento de veículos e índice de violência zero. Noutras palavras, não havia, então, qualquer preocupação dos pais em deixar seus filhos nas ruas, onde a diversão era farta e de graça.
Entre os meninos, uma das brincadeiras prediletas era o jogo de gude. O moleque andava com uma sacolinha cheia de bolinhas de vidro pra cima e pra baixo, procurando adversários para uma partida à vera (valendo). Quem ganhava a partida ficava com as gudes do adversário.

As bolinhas transparentes esverdeadas ou azuladas eram as mais comuns. Os chamados “olhinhos”, que eram brancos com riscos coloridos eram muito disputados, porque eram difíceis de se achar. Mais raras ainda eram as carambolas, que eram transparentes, e no seu interior, tinham desenhos imitando a fruta em várias cores. Essa gudes mais raras, assim como as “bilhas”, que eram esferas de aço, quase nunca entravam na disputa dos jogos.
Havia basicamente dois tipos de jogos com as bolinhas de gude: o triangulo e a bulica, sendo o primeiro o mais jogado. Na bulica, era feito um buraco no chão e quem acertasse a gude nele, ganhava uma bolinha do adversário. Meio sem graça essa modalidade. O preferido era o triângulo, onde dois ou mais moleques faziam o desenho geométrico no chão e uma linha a 10 passos dele. No triângulo, cada um colocava igual quantidade de bolinhas de gude.  Para começar o jogo, do lado do triângulo, cada moleque arremessava sua gude atiradora em direção à linha. Aquele que mais perto chegava do risco começava a partida.

O objetivo era com os “tecos” feitos nas bolas, pressionado a gude entre os dedos indicador e polegar, acertar e retirar as bolinhas de dentro do triangulo. As tiradas ficavam com quem acertava a jogada.  O Jogador também podia “matar” o adversário acertando a bolinha dele. Nesse caso, ficava com a bolinha predileta do oponente e também todas as gudes do triangulo. Nem precisa dizer que, de vez em quando, saía briga por causa do jogo, porque nenhum curumim gostava de perder.
Outra diversão garantida, que também podia terminar em confusão, eram as pipas. Na Granja, todo mês de agosto as pipas cruzavam o céu do bairro com o início da temporada de ventos. Quando o vento estava fraco, o curumim cantava: “Vem Vento Caxingulê, bicho do mato qué te morder”. Se não desse certo o guri repetia a cantoria até o danado do vento como soprar.
Naquela época cada moleque fazia a sua pipa com varinhas de bambu, linha 10 para amarrar, papel de seda e cola escolar. Quem não tinha dinheiro para comprar a cola, fazia o grude misturando água e farinha de trigo ou surrupiava arroz cozido da panela da mãe, que também colava a seda.. Quem não tinha dinheiro para comprar o papel de seda, fazia a pipa com papel de pão, revista, gibi ou jornal.
Os curumins menores que não sabiam fazer e nem conseguiam soltar as pipas grandes, se divertiam com os “jalequinhos”, pequenas pipas feitas com folha dobrada de caderno ou jornal e amarrada com barbante. Os “jalequinhos” não voavam mais do que três metros de altura, mas isso já era suficiente para a imaginação do gurizinho ir longe.
Já os moleques maiores se esmeravam na construção de suas pipas. Era muito comum comprar papel de seda com emblema de time de futebol e fazer as pipas com ele. A montagem das varetas tinha que ser perfeita para a pipa não ficar torta e “dar de banda” no ar, ou seja, não ser sustentada pelo vento.

As linhas para soltar as pipas eram enroladas em latas de leite ou em carretilhas feitas de madeira. Os moleques usavam e abusavam do cerol para passar na linha e, dessa forma, “cortar” as pipas dos adversários que estavam no ar. O cerol era feito com cola ou farinha de trigo e vidro moído. Para moer, o guri pegava o vidro, geralmente lâmpadas fluorescentes queimadas, ou outros vidros finos, colocava dentro de um pano e socava com pau ou pedra. Para passar o cerol na linha sem se cortar, o curumim usava um papel mais grosso para cobrir a palma da mão. Mesmo assim, de vez em quando, um ou outro corte aparecia nos dedos
A guerra das pipas muitas vezes acontecia com moleques bem longe um dos outros, por exemplo, entre os guris que ficavam numa rua abaixo da Pedreira, e os que soltavam suas pipas na rua da escolinha, na parte mais baixa do bairro. Se o moleque conseguisse cortar a pipa do outro e ainda apará-la, ou seja, trazê-la emaranhada à sua, ele era o maiorial e ficava com o brinquedo do adversário.  Quando a pipa cortada ficava sem rumo no ar, um bando de curumins a seguia e ela era disputada a tapa quando chegava perto do solo.
No próximo capítulo vamos falar de outras brincadeiras de ruas que envolviam também as meninas do bairro.

Cesar Rodrigues
Jornalista- Colaborador da AMAGG


Ilustrações: Reproduções de óleo sobre tela do pintores David Ricci e Spinelli d’Brito

Fotos Livres na Internet

--------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 12 -(BRINCADEIRAS DE RUA-2-)

Dando continuidade ao relato sobre as brincadeiras de rua dos nossos “indiozinhos” entre os anos 60 e 80, agora registraremos também algumas atividades que eram feitas junto com as meninas. Naquela época, as “indiazinhas” ficavam mais dentro de casa, ajudando suas mães nos serviços domésticos e, ao mesmo tempo, aprendendo a cozinhar, lavar e passar roupa, limpar a casa. Enfim, executavam tarefas tidas como femininas no lar, afinal, eram esses os costumes da época, mas, elas sempre davam um jeito de se juntar aos curumins meninos.
As brincadeiras mais comuns na Granja Guarani que envolviam meninos e meninas eram o Pique Esconde, Pique Bandeira, Três Marias, Amarelinha, Pula Corda, Peteca, e um ousado joguinho para a época chamado “Pera, Uva ou Maçã”, entre outras.
Vamos recordar como eram as brincadeiras:
O Pique-Esconde é o mesmo que sobrevive ainda bravamente até hoje. Diversos amigos se reúnem; um deles fecha o olho e conta até certo número (antigamente contava-se até 50) enquanto os demais se escondem. Ao terminar a contagem, o escolhido para procurar os amigos tinha que localizá-lo, voltar ao ponto de origem e tocá-lo antes do descoberto. O primeiro descoberto era quem fechava o olho na rodada seguinte.
O Pique-Bandeira reunia duas equipes com igual número de amigos. A gente fazia um grande quadrado na rua com um risco no chão, e dividia ao meio. Cada equipe ficava de um lado. Nos fundos de cada lado da “quadra” era colocado um galho de árvore (já que os curumins não tinham bandeira de verdade). Ganhava o jogo quem conseguia invadir o território alheio, pegar o galho e voltar ao seu lado sem ser tocado pelo adversário.
As Três Marias eram um jogo com pedrinhas. Na verdade, preferíamos a versão com 11 pedras que deveriam caber na palma da mão (uma dificuldade a mais pros indiozinhos menores). As pedras eram lançadas para cima e aparadas na parte de trás da mão. Eram lançadas novamente e, das que eram pegas, metade ficava com o jogador e a outra metade voltava para o jogo. Ganhava a partida quem acumulava mais pedras. Detalhe: este jogo na Granja tinha um charme a mais porque, normalmente, utilizávamos pedras “lavadas” que pegávamos no fundo das cachoeiras do Parque Nacional ou nos muitos riachos que cortam o bairro.
O jogo de amarelinha também é o mesmo que resiste até os dias atuais, com riscos no chão em forma de quadrados ou caracol e uma pedra atirada nas “casas”. Tínhamos que pular numa perna só em todas as casas, pegar a pedra, e arremessá-la para a “casa” seguinte.
O Pula Corda era bastante animado. Poderia ser brincado com três crianças (duas “batendo” a corda e uma pulando) ou vários indiozinhos pulando a corda isoladamente ou juntos. O legal era que a velocidade com que se “batia” a corda aumentava na medida em que todos conseguiam o pulo. Quando ficava muito rápido, o pobre coitado levava uma rasteira da corda e ia de bunda no chão.
O Jogo de Peteca era entre duas crianças que jogavam o brinquedo uma para a outra ou, em equipes. No jogo coletivo, como não tínhamos rede para dividir a rua, era feito simplesmente um risco no chão. Ganhava a partida quem não deixasse a peteca cair no seu território.
O jogo das frutas “Pêra, Uva ou Maçã” era bastante interessante, principalmente para os meninos e meninas que chegavam na puberdade.
 

Vários curumins de ambos os sexos se reuniam lado a lado em um canto da rua e outros dois ficavam de frente para eles. Um desses dois tapava o olho do outro com a mão; apontava o dedo para cada um dos que estavam na frente e perguntava: “É esse?”. O que estava com a vista vendava respondia “passa” ou “é”. Quando a pessoa era escolhida, quem tapava o olho perguntava “Pera, Uva ou Maçã?”. Se o que estava de olho vendado respondia pera, tinha que dar um aperto de mão no escolhido; se a resposta fosse maçã, dava um abraço e se a resposta fosse uva, tinha direito a dar um beijo.
Se o indiozinho que tapava olho era amigo mesmo do outro, quando apontava para alguma menina bonita, sem que ninguém ouvisse, ele cochichava no ouvido ou dava um toque nas costas. As meninas faziam algo semelhante e, assim, sobravam beijinhos para todos os lados. A maioria era no rosto, mas, apareciam também alguns selinhos nos lábios. Com o tempo acrescentaram uma “salada mista” na brincadeira e, então, o beijo era língua mesmo. Assim começavam muitos namoros de curumins na Granja Guarani.

 No próximo capítulo vamos continuar relatando outras brincadeiras de rua e também como os indiozinhos passavam o tempo quando eram obrigados a ficar dentro de casa.

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG




Ilustrações livres Internet

--------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI - PARTE 13 -(BRINCADEIRAS DE RUA-3-)

Dando sequência às brincadeiras de rua entre os “indiozinhos” e “indiazinhas” da Granja Guarani, entre as décadas de 60 e 80, hoje vamos relatar como eram as “Queimadas”, o Bate Figurinha, ou “Bafo”, Bolinha de Sabão; Guerra de Marianeira, Pé de Lata e Ciranda Cirandinha.
A Queimada era uma brincadeira que sempre atraia muitos moleques e meninas na Granja Guarani, quase sempre jogada com a mesma bola de borracha “Dente de Leite” que os meninos usavam na quadra do Alto. Na Queimada, dois times se enfrentam com o mesmo número de jogadores. Riscávamos uma quadra na rua de terra e a dividíamos ao meio. O Objetivo era atingir o adversário que, se não segurasse a bola, saia do jogo “queimado”. Se ele pegasse a bola, era a sua vez de tentar queimar um amigo do time contrário.
O bate figurinha também era uma febre, notadamente nos anos 70. Em quase toda esquina havia moleques e meninas

tentando “ganhar” figurinhas dos amigos no jogo. A brincadeira é simples: dois oponentes colocam suas figurinhas no jogo, fazendo montes dos cards. O “par ou ímpar” decidia quem começava a partida, dando “bafos” na figurinha com a mão em forma de concha. A figurinha que era virada, ficava com o jogador. Se ele não virasse nenhuma, a jogada passava para o oponente. Lembro que uma coleção de figurinhas lançada pelo chiclete Ping Pong nunca entrava nas disputas porque os cards eram muito pesados, feitos em papel-cartão.
Mas, os moleques somente colocavam em jogo as figurinhas que tinham repetidas, ou seja, as que já tinham uma igual colada em seu álbum. Curumins mais espertos, sem que o adversário visse, lambiam a palma da mão, pois, com essa trapaça, era mais fácil virar a figurinha. Quando a trapaça era descoberta, o fulano perdia a vez e, algumas vezes, começava uma briguinha de moleques.
Também era comum os meninos e as meninas trocarem as figurinhas repetidas para completar o seu álbum.

Mas, esse álbum era muito difícil de ser totalmente completo, por causa das “figurinhas carimbadas”, feitas em número muito pequeno pelo editor. Quem conseguia completar o álbum, algumas vezes até ganhava brinde das editoras, que eram buscados na mesma banca de jornais onde os cards eram comprados. Havia até prêmios caros como aparelhos de TV preto e branco, geladeiras e outros eletrodomésticos.
As brincadeiras com bolinha de sabão também faziam a festa da gurizada, principalmente no verão, quando as mães deixavam os curumins à vontade para mexer com água. Não existiam esses brinquedos plásticos modernos para fazer as bolinhas. A brincadeira era quase sempre com canudos improvisados com o galho oco de determinadas árvores como o mamoeiro e bambus, ou ainda com canudos de alumínio cortados das antenas de TV.

Os bambus e os canudos de antena, aliás, eram a base também para a “Guerra de Marianeira”. A Marianeira é uma frutinha que, quando está verde, fica bem consistente e ideal para a guerra que envolvia curumins de ambos os sexos. Normalmente a frutinha era soprada dentro do canudo. A velocidade com que ela saía dependia do tamanho da “arma” e também da força do sopro do moleque ou da menina.
Essa brincadeira, às vezes, doía e deixava marcas no corpo. Mas, nada que não sarasse de um dia para o outro. Além do sopro, a Marianeira podia ser lançada também com estocadas em um dos lados do canudo, feitas com um pedaço de pau. Nesses casos, a “arma” produzia um barulho característico (ploc) e se acertasse alguém certamente iria
machucar. 
Vale lembrar que essa frutinha, quando madura, tem cor amarelada, sabor doce, e é prato predileto de muitos passarinhos, especialmente as sabiás. Muitos curumins não resistiam e comiam algumas Marianeiras maduras e o resultado, invariavelmente, era uma dor de barriga seguida de pequena diarréia na certa. Os mesmo canudos dessa guerra eram levados para a escola pelos moleques que atiravam pequenas bolas de papel, devidamente umedecidas com cuspe, no teto das salas de aula. O grude no teto muitas vezes fazia aniversário, para desespero das professoras e das tias da limpeza.

A brincadeira com pé de lata era simples. Furava uma lata de leite em pó, passava um barbante e prendia com um prego em uma das extremidades do fio. Daí era só encaixar o pé e equilibrar-se em cima da lata. Os curumins menores faziam o mesmo, só que, em vez de usar a lata, faziam “chinelinhos” com suas tampas. Dentro de casa, isso fazia um barulho danado e podia render uma reprimenda das mães. Na escola, nem pensar... Essa brincadeira é uma derivação das pernas de pau que só os maiores conseguiam se equilibrar.
As brincadeiras de roda, ciranda ou cirandinha, eram bastante interessantes porque aumentava o convívio entre os meninos e as meninas do bairro.
Essa aproximação, onde literalmente os indiozinhos se davam as mãos, elevada o grau de amizade entre eles e também era motivo para início de paqueras, quando os curumins já estavam mais crescidos. No fundo, os meninos não gostavam tanto assim daquela cantoria, mas, a presença das meninas era suficiente para o moleque “pagar o mico” e entrar na roda. 

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG


--------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI - PARTE 14 - (PAIXÃO PELO FUTEBOL-1-)

O capítulo de hoje vamos dedicar exclusivamente para falar de futebol que, como não poderia deixar de ser, era a brincadeira de rua predileta dos indiozinhos da Granja Guarani. Era só falar: “Vamos jogar bola!” que, em minutos dois times estavam prontos. No bairro não havia sequer uma quadra de uso da comunidade, muito menos um campo de futebol. Mas, não era por isso que a molecada não praticava o seu esporte predileto. A bola dos moleques era sempre uma de borracha reforçada tipo “Dente de Leite”
Perto do Largo do Machadinho, onde hoje é a Rua Julieta Paim, havia um atalho em meio à um matagal que usávamos para chegar mais rápido ao bairro do Alto. Não me lembro exatamente quem, mas, no meio deste caminho, alguém abriu uma clareira que, pouco tempo depois foi transformado em um “campo de futebol”.
Esse campinho improvisado era de terra batida, cercado de eucaliptos e em cima de um barranco de um dos lados onde hoje é a Rua Ernesto Sansoe. Ali chegou a treinar inclusive o nosso glorioso União Futebol Clube, que falaremos um pouco mais a frente. Pois bem, neste campo de terra batida, sobravam pedregulhos e galhos que despencavam das árvores próximas.
O local foi palco de inúmeras partidas dos moleques que, invariavelmente, saiam do campinho com o kichute vermelho do barro e muitos arranhões pelo corpo porque não havia nem um metro quadrado de grama no campo. Os indiozinhos também saiam muito cansados da peleja porque, a todo instante, em revezamento, um era obrigado a descer o barranco, que tinha uns cinco metros de altura, para pegar a bola lá embaixo na rua.
Para falar de futebol na Granja Guarani é preciso começar pelo time do bairro, o União Futebol Clube, que tem o vermelho como cor predominante no uniforme. O time sempre disputou torneios amadores de futebol e amistosos em vários bairros de Teresópolis. Sempre teve na equipe, em sua maioria, moradores do bairro amantes do futebol.
O União sempre foi mantido graças ao trabalho voluntário iniciado no final dos anos 60 por moradores como Seo Antonio (Toninho Marreta), Sassau, Seo Fagundes, Zé Nabo e muitos outros que direta ou indiretamente davam estrutura. As viagens para jogos fora do bairro, por exemplo, eram feitas na carroceria do caminhão do Sassau. Os demais atuavam como diretores ou apoiadores financeiros do time.
A equipe sempre foi bastante lutadora, quase que literalmente. O time não gostava de perder de jeito nenhum, principalmente na década de 70. Mas, há que se reconhecer que haviam equipes muito mais estruturadas que o União e isso resultava em muitas derrotas para o time da Granja Guarani. O resultado é que os moleques, agora já adolescentes, alguns também na fase adulta, vendiam muito caro os resultados negativos. Brigas dentro e fora de campo eram rotina nos jogos da equipe, principalmente naqueles em o time não conseguia vencer.

Muitas confusões podem ser atribuídas às bebidas que alguns dos nossos “atletas” ingeriam mesmo antes do jogo. Alguns exemplo de jogadores que atuavam nesse tempo são: Cid “Borracha”, goleiro que sempre foi um moleque vaidoso, com cabelos compridos e cacheados, era um daqueles que tomavam algumas antes das partidas e arrumavam confusão depois; Maurício Mucurú, zagueiro, negro alto e muito forte, intimidava os adversários pelo porte físico e pelos trancos. Jogava na base do passou, levou (um sarrafo). Fernando Oraque, jogava no meio e era mais calmo, assim  como seu irmão menor, Orlando, que também jogava no time. Betinho e Edson “Meia-Noite” eram armadores e atacantes, com bom domínio de bola e visão de jogo. Meus irmãos mais velhos Mazinho e Arnaldo também jogavam no time, o primeiro com mais frequencia. O Curumim aqui só vestiu o manto vermelho do União uma única vez, quando faltou jogador em um amistoso na roça, salvo engano, no bairro de Albuquerque.
O União resiste até hoje graças ao trabalho voluntário do “Seo” Alfredo Jaras, o Chileno, que abraçou o time desde o final da década de 70.

No próximo capítulo mais futebol: os rachas na quadra do alto e o fanatismo na torcida dos grandes clubes do Rio de Janeiro.

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG


--------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 15 - (PAIXÃO PELO FUTEBOL-2-)

Quadra Praça do Alto
Kichute, Bamba ou Conga nos pés, os moleques da Granja Guarani quando chegavam à quarta série primária eram obrigados a ir estudar no colégio Euclides da Cunha, no bairro do Alto. Muito perto da escola ficava uma quadra de futebol de salão que era parada obrigatória antes do início das aulas. Nesta quadra se reuniam meninos de vários bairros da cidade próximos ao Alto, já que o Euclides da Cunha, nos anos 60 e 70, era a única escola pública da região para quem estava concluindo o antigo primário.

Dessa forma, era inevitável que os guris de um determinado bairro montasse time para jogar contra adversários de outros bairros. Alguns moleques da Granja Guarani se destacavam nas partidas. O Renildo, por exemplo, tinha um chute muito forte. O Meia-Noite desfilava na quadra a mesma elegância que tinha com a bola nos pés no futebol de campo do time do União. O Valdo, também tinha um bom domínio de bola com a canhota. Eu, meu irmão Arnaldo e meu primo Ivan éramos mais voluntariosos, mas também deixávamos nossos golzinhos nas peladas.
Os indiozinhos que não eram muito chegados no estudo matavam aula para ficar jogando na quadra. Hoje, sem dúvida, pagam o preço justo pelo mau exemplo. Havia um menino chamado Adalto, que não era morador da Granja Guarani, e que trocava os estudos pela bola. A diferença é que ele realmente era o craque, o melhor de todos que se exibiam na quadra, e, soube há pouco tempo, chegou a treinar em times profissionais de Minas Gerais, como o Atlético Mineiro, mas, não vingou no futebol profissional. 
Equipe de Esportes da Rádio Globo:
Mario Vianna, Waldyr Amaral, Jorge Cury,
João Saldanha e Luiz Mendes
Por falar em clubes, acompanhar bem de perto o dia a dia dos grandes clubes do Rio também era outra rotina dos moleques da Granja Guarani. O “bem de perto”, na verdade, era através do rádio porque, naquele tempo, eram raras as transmissões de jogos de futebol na TV. E, os moleques do bairro torciam para times diferentes: a maioria era Flamengo, mas, também tinha muito vascaíno, tricolor e botafoguense. 
Os moleques também ficavam encantados com as imagens de futebol no cinema, exibidas pelo Canal 100, antes do início dos filmes.
Era comum entre os moleques andar com um radinho de pilha pelas ruas nas tardes de domingo para acompanhar os jogos. A audiência era dividida entre aqueles que preferiam as rádios Globo, Tupi e Nacional. Na Globo, durante muitos anos os locutores principais eram Waldir Amaral e Jorge Cury. Na Tupi reinava Doalcei Bueno de Camargo e, na Nacional, o “garotinho” José Carlos Araújo. Os repórteres de Campo como os “trepidantes” Denis Menezes e  Washington Rodrigues, Kleber Leite, Iata Anderson e Luiz Penido, além de comentaristas como João Saldanha, Luiz Mendes e Mario Vianna também eram como se fossem “velhos amigos” dos moleques que reconheciam todos pelo timbre da voz.
José Carlos Araújp
  
João Saldanha
O comentarista João Saldanha, que formou a seleção tri-campeão no México, aliás, empresta o sobrenome ao apelido do Lago Iacy, mais conhecido pelos moradores antigos da Granja Guarani como Lago do Saldanha.
Os radialistas tinham características próprias e também bordões como marca registrada. Waldir Amaral sempre começava a jornada esportiva com a seguinte frase: “Você ouvinte, é a nossa meta. Pensando em você é que procuramos fazer o melhor...”. Jorge Cury tinha pulmão de aço e quando narrava gols bonitos bradava um “golaço aço aço”. Quando o seu Flamengo marcava, Cury estendia o grito de um gol por pelo menos 20 segundos no ar. José Carlos Araujo eternizou o “Vai mais, Vai mais, Vai mais garotinho”, copiado em São Paulo por Osmar Santos. A vinheta que anunciava João Saldanha antecipava que o que ele “Falou tá falado!”. Mario Vianna ele comentarista de arbitragem e se o gol valesse, ele decretava “Goooool Leeeegaaaal!”.

Vasco Campeão Brasileiro de 74
Botafogo - início anos 70
Entre os anos 60 e 80, em momentos distintos, os indiozinhos da Granja Guarani torcedores de Botafogo, Fluminense, Vasco e Flamengo, cantavam vitória sobre os amiguinhos. No final dos 60 e início dos 70, o Bota tinha um time melhor. Em 74, o Vasco foi campeão brasileiro.
Em 76 o Flu
A "Máquina" do Flu em 77
montou a famosa “Máquina Tricolor”. A partir de 78 o Flamengo formou a “SeleFla” que papou todos os títulos nacionais, do continente e mundial.
Fla Campeão do Mundo em 81

Primeiro pelo rádio, depois pela TV, os moleques da Granja sempre foram fanáticos torcedores de futebol e, inspirados nos seus ídolos chutavam a bola em várias ruas do bairro. Sonhavam jogar no time do coração do Rio, mas, se conseguissem vestir a camisa do União Futebol Clube, o time do bairro, o faziam como se estivessem defendendo a seleção brasileira em Copa do Mundo.

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG 

--------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 16 - (DENTRO DE CASA)

Nas décadas de 60 e 70, e ainda durante boa parte dos anos 80, as famílias da Granja Guarani tinham prole numerosa. Era muito comum os casais terem número de filhos superior a 4. Muitos tinham de 6 a 10 filhos. Portanto, a permanência dos moleques e meninas nas ruas do bairro era até certo ponto incentivada pelos pais, como vimos nos capítulos anteriores. Afinal de contas, o que fazer com tantos indiozinhos dentro de casa? Como impedir que eles virassem o lar de pernas pro ar? Realmente, tarefa muito difícil.
Contudo, havia momentos que não tinha jeito, a turma tinha mesmo que ficar trancafiada dentro de casa, após as aulas. Isso acontecia principalmente nos dias de chuva e no final do período noturno. Em dias secos, meninos e meninas ficavam brincando nas ruas perto de casa até por volta das oito da noite. Mas, quando chovia, normalmente as mães não deixavam os filhos sair, embora alguns moleques escapassem para represar as águas das chuvas em grandes poças nos lados das ruas.
Dentro de casa, lógico, os indiozinhos cheios de energia faziam muitas estripulias: era um tal de escalar paredes; virar cambalhota para trás segurando os batentes das portas; brincar de esconde-esconde e se meter debaixo das camas; entre muitas outras brincadeiras.
Nos dias de chuvas, lembro muito bem, aumentava consideravelmente o número de moscas dentro de
casa. Pronto, isso era o suficiente para os moleques mexerem nos apetrechos de costura das mães à busca daqueles elásticos brancos que eram colocados na cintura dos shorts. O tal do elástico, assim como aquelas borrachinhas de amarrar dinheiro, virava arma contra as moscas e as mães só reclamavam porque tinham que limpar as paredes depois das batalhas contra os insetos.
Havia, também, alguns joguinhos prontos que chamavam muito a atenção dos meninos e meninas. Um dos prediletos, sem dúvida, era o jogo de varetas. Quase toda casa tinha aquela latinha em forma de cubo circular com as varetinhas coloridas dentro. Jogos de mágicas também eram muito usados, e, os que conseguiam fazer os truques sem que ninguém percebesse se sentia um verdadeiro mágico. Meninos e meninas também disputavam jogos fáceis de baralho, como a bisca.
Outra brincadeira legal dentro de casa era feita com o barbante entrelaçado nos dedos, que chamávamos de Cama de Gato. Várias figuras geométricas eram formadas dependendo da posição que o barbante era levado pelos dedos. Vencia aquele que fazia uma determinada figura e o oponente não conseguia igual êxito.
O indiozinho que tinha irmãos mais velhos, principalmente irmãs mais velhas, ocupava uma boa parte dos dias chuvosos
aprendendo a ler e escrever. Aí, além do caderno e do lápis, valia usar de tudo. Nossas irmãs compravam muitos cadernos com desenhos para pintar e elas nos cediam suas revistas (Manchete, O Cruzeiro, Capricho, Amiga e Sétimo Céu) para recortarmos palavras e formarmos novas frases. Assim, como já mostramos anteriormente, começava a alfabetização de boa parte dos Indiozinhos da Granja Guarani.
O guris gostavam também muito de ler gibis. Além da tradicional turma do Walt Disney, gostávamos dos personagens da Turma da Mônica, do Fantasma, Capitão América, Mandraque, Homem de Ferro, Super Homem, Batman e muitos outros. Os moleques mais velhos gostavam também das aventuras do Tex, Zorro, e outros bang-bang em quadrinhos. O Renildo tinha muitas coleções na casa dele e emprestava os gibis para quem não tinha. Aliás, ele continua com esse hábito de colecionar HQs e, hoje, possui um acervo de cerca de 20 mil exemplares de gibis.
Nas casas onde havia televisão, os indiozinhos passavam boa parte do tempo vendo desenhos animados. Os mais populares eram o Shazzan, Herculóides, Baleia Mob Dick, Mighthor, Namôr- O Príncipe Submarino, Space Ghost, Speed Racer,  além, é claro, do Zé Colméia e da turma do Manda Chuva.
Os indiozinhos também não perdiam de jeito nenhum determinados seriados de TV. Destaques para Nacional Kid, Viagem ao Fundo do Mar, Túnel do Tempo, Perdidos no Espaço, Jeannie é um Gênio, a Feiticeira, Batman e Robin, Tarzã, Mulher Maravilha, O Homem de Seis Milhões de Dólares, Kojak, Bonanza, lassie, Rim Tim Tim, entre tantos outros. Nesta lista, não podem faltar os nacionais Jerônimo, o Herói do Sertão e o Vigilante Rodoviário.

Mas, quando a chuva diminuía, ou passava, não tinha TV nem gibi que segurava. Os indiozinhos voltavam para rua, com a bola debaixo do braço ou a atiradeira no bolso.




Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG

--------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 17 (A PESCA)

Taú
Já vimos aqui na saga dos “indiozinhos” que os moleques da Granja Guarani nos anos 60, 70 e 80 passavam horas no mato caçando passarinhos. Hoje isso pode soar errado e ambientalmente incorreto, mas, naqueles tempos era uma atividade natural, até por conta da privilegiada localização do bairro, engolido pela densa floresta da Mata Atlântica. Os passarinhos faziam parte do cardápio das famílias, e não eram os únicos alimentos retirados da natureza pelos moleques.
Gambá
Era comum também caçarmos pequenos tatús e gambás. Em terrenos alagadiços, de vez em quando os indiozinhos conseguiam capturar rãs no período noturno. A operação era “arriscada” com lanterna em punho que cegava temporariamente a Rã antes de ser fisgada. 
Os moleques tinham medo pois corria a lenda que se a rã saltasse para cima de algum, ela grudaria no corpo e só soltava em dia de tempestade com trovão.
Seguindo a melhor tradição indígena, os guris e as meninas esperavam ansiosos chegar os meses quentes de verão para capturar as Tanajuras, outra dádiva da natureza para o prato dos curumins. Também conhecidas como Içás, as Tanajuras são 
Tanajura
grandes formigas aladas com um enorme abdômen que, frito na gordura ou misturado na farofa realmente era uma delícia.
As formigas apareciam sempre em dias com trovoadas e, as Tanajuras surgiam em bandos voando em diversos pontos do bairro. Quando um moleque via a nuvem de Içás imediatamente acionava os amigos e amigas. Daí, cada um pegava uma pano qualquer em casa e uma lata vazia para caça-las. Jogávamos o pano em cima delas e, no chão, retirávamos a “sua bunda” que ia para dentro da latinha.
Farofa de Tanajura

Em casa, o petisco ia direto para a frigideira. Era uma festa só pegar e comer a tanajura. 
Os indiozinhos também percorriam os muitos riachos do bairro atrás de outro petisco muito apreciado: o Caranguejo. Esse era mais fácil de pegar e tinha praticamente o ano todo. Bastava entrar nos cursos de água e levantar as pedras nas partes rasas. Fazíamos isso principalmente ao longo do Rio Paquequer ao lado do Parque Nacional, nos intervalos dos poços em que tomávamos banho no verão.

Caranguejo

A maioria dos Caranguejos dos rios, embora parentes, não são tão grandes quanto os Siris do mar. Mas, nem por isso são menos perigosos. Pegar os Caranguejos requeria certa técnica e agilidade. Era preciso levantar a pedra, localizar o bicho e pegá-lo pela parte de trás para não levar uma ferroada das suas potentes garras. Muitas vezes os indiozinhos levavam a pior e saiam com o dedo sangrando, mas, nada que impedia a continuidade da caçada.
Caranguejo cozido
Em casa, o caranguejo ia para a panela com água e sal. Em pouco tempo de fervura ficava com o tom avermelhado, o que significava que estava cozido. Aí era sentar no chão e se lambuzar, com cuidado para não cortar os beiços pois a carcaça do bichinho, após quebrada, era dura e fina feito navalha.  
Ainda nos rios, os indiozinhos da Granja Guarani durante um certo período do ano, ficavam longas

Pesca de Pitú com peneira
horas capturando Pitús, outro crustáceo, parente do camarão. Para essa pesca, usávamos as peneiras de areia fina dos nossos pais pedreiros. A pesca do Pitú era tarefa do indiozinho mais crescido, porque ele só era encontrado nas margens dos rios com capim e com uma profundidade de cerca de meio metro.
Lago Comary
Era preciso ser rápido porque o pitu é arisco e, quando capturado, fazia de tudo para pular da peneira. Era preciso segurá-lo rapidamente e colocar
numa sacola plástica que ficava sempre com um amigo na beira do rio. De vez em quando os indiozinhos se deparavam com pequenas cobras na beira dos rios, mas, nada que assustasse a ponto de interromper a pescaria.
Lago do Saldanha (Iacy)
Os moleques da Granja Guarani também gostavam muito e pescar com varas de bambú, cortadas no próprio bairro. Nossos pais compravam a linha de pesca e nos presenteavam também com os pequenos chumbinhos e anzol mosquitinho. Os dois principais pontos de pesca eram os lagos do Saldanha (Iacy) e o da Granja Comary.
Cará
Havia várias espécies de peixes, mas, as capturadas com mais freqüência eram o Cará, o Mandi, a Tilápia, a Piaba, o Bagre e a Traíra. Os dois últimos eram os maiores e mais perigosos. O bagre tem um espinho no dorso que, se tocado dói muito, e a traíra pequeninos dentes parecendo uma serra. Os dois, quando fisgados, sempre usavam suas armas para tentar escapar.
Bagre
A pesca do Lago Iacy era liberada. Em compensação, a ida ao Lago do Comary era sempre uma grande aventura à parte. Era proibido pescar naquele imenso lago. Portanto, os indiozinhos só se aventuravam no bairro vizinho de luxo à noite. Entrávamos no Comary pela mata repleta de lírios que dividia as duas granjas. Ficávamos escondidos e no mais absoluto silêncio 
Tilápia
na beira do lago, encobertos pelas moitas de mato.  

Os “guardas particulares” das mansões da Granja Comary tinham ordens expressas para nos expulsar da beira do lago e, quando nos flagravam, o faziam sem dó nem piedade. Além de tomar a nossa fieira de peixes, os “guardas” também confiscavam nossos apetrechos de pesca. Mas, na maioria das vezes, os indiozinhos conseguiam escapar entrando no mato, porque lá, ninguém era mais rápido que eles. No dia seguinte, a mistura do almoço era invariavelmente peixe frito.


Cesar Rodrigues
Jornalista-Colaborador da AMAGG

--------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 18 - (SE DANDO MAL...)

Como todos puderam notar nos capítulos anteriores, os indiozinhos da Granja Guarani sempre foram muito irriquietos, em constante atividade física. Os moleques não tinham medo de mato, bichos, locais altos para mergulho nas cachoeiras, cipós para balançar em grandes árvores, enfim, a exceção da vara de marmelo ou do chinelo da mamãe, nada segurava os curumins. Por conta dessa “hiperatividade”, os guris e algumas meninas, de vez em quando faziam visitas forçadas ao Pronto Socorro do Hospital de Clínicas ou do Hospital São José.

O curumim que vos escreve, certa vez ia para a cachoeira junto com seu primo, Ivan, cada qual em sua bicicleta. Cheio de graça o indiozinho aqui queria mostrar que tinha total domínio sobre sua bike e invejável equilíbrio. Quase na esquina da Alameda Maués com a Estrada do Araken avisei pro primo: “Vou andar sem as mãos no guidão e de olhos fechados”. Cinco segundos depois o metidinho estava estatelado com bicicleta e tudo dentro de um bueiro e o primo morrendo de dar risada. A canela doendo e a barriga arranhada não foram suficientes para impedir o mergulho na cachoeira. Mas, que doeu, doeu...
Ainda neste trecho, perto de onde fica o Portal de Entrada da Granja Guarani, os moleques costumavam passar maus momentos com as abelhas que tomavam conta do grande quintal da “Casa da Porteira” boa parte do ano. Algumas vezes o enxame de abelhas atacava sem motivação, noutras, eram os moleques que atiravam pedras e tinham que sair em disparada para fugir das ferroadas. Houve casos de alguns que foram para no Pronto Socorro por causa das abelhas.
O mesmo poço de baixo (cujo nome oficial é Piscina Slopper, e poucos na Granja Guarani sabem disso) era palco de desespero para as mães dos curumins. A piscina, embora área de lazer predileta dos moradores, também era muito perigosa. No fundo do poço havia muitas pedras, algumas grandes e os moleques eram atrevidos no mergulho.
O resultado é que alguns curumins que mergulhavam da “muralha” ao lado do poço se arriscavam perigosamente. Meu primo Luiz, certa feita, mergulhou do local, e, ao entrar
na água, ao invés de dar impulso contrário e subir, foi direto para o fundo e bateu com a cabeça numa pedra. Sangrou muito, ficou desacordado, foi parar no PS e ganhou para sempre um desvio de coluna.
Ainda no poço eram comuns a escoriações nos moleques que escorregavam no “lôdo” da pequena laje que havia junto à piscina, ou nos tombos que levavam quando tentavam fugir dos curumins maiores, como Cid Borracha e Maurício Mucurú,
que tinham o hábito de erguer os menores e lançá-los na parte funda do lugar para que aprendessem a nadar. 
Um pouco abaixo da piscina há uma queda de água de cerca de 3 metros de altura. Os moleques tinham hábito de pular de um lado para o outro da corredeira. Quando erravam o salto, despencavam desta pequena cachoeira e se estatelavam nas pedras lá embaixo. Só não ia para no Pronto Socorro quem tinha sorte.
Ainda neste poço de baixo, anexo, há uma grande laje de pedra. Como a água é sempre fria, os moleques ficavam um bom tempo deitados de barriga para baixo para se aquecer na pedra. Resultado: ganhavam vermelhidão em boa parte do corpo e, às vezes, paravam no hospital com algum mal estar.
O mato também tinha seus perigos. Uma vez, um moleque que não me recordo o nome, subiu em um pinheiro para pegar uma cachopa de pinha, numa enorme araucária, no matagal entre a Granja e a Pedreira. A árvore era muito alta, e, no meio da subida ele escorregou. Na queda, o traseiro bateu com tudo em outro tronco de árvore. Machucou feio, mas, teve sorte. Ganhou apenas algumas semanas de imobilização na cama.
Havia outras peraltices que também rendiam merthiolate (como esse danado ardia...), mercúrio, algodão, gaze e esparadrapo nos moleques e também nas meninas mais espivetadas. Meu irmão Arnaldo, por exemplo, quebrou a clavícula tentando virar cambalhota para trás segurando o batente da porta da cozinha. No final do ano, invadíamos a Granja Comary para pegar castanha do Pará e, sempre nos machucávamos na cachopa cheia de espinho do fruto. Também arrumávamos muitos arranhões, e às vezes dentes quebrados, em quedas nos cavalos e jumentos do “Seo Azimiro”. Os moleques da Granja mais crescidos, que arrumavam serviço no Boliche do Hygino, também viviam com as caneladas roxas com os pinos que voavam nos strikes.

Nossos anjos da guarda devem mesmo nos adorar...



Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG

--------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 19 (LOUISA E AS ABELHAS)

Casa da Portaria, entrada da Granja Guarani
Em 1963, a Casa da Portaria, aquela mesmo que fica ali bem ao lado do Portal de Entrada da Granja Guarani, ganhou moradores privilegiados. Poucos no bairro os conheciam, mas, eles conheciam quase todo mundo do lugar, afinal, sua casa tinha posição estratégica e janelas envidraçadas, onde, quem estava de fora não via quem estava dentro, e quem estava dentro assistia a todos que passavam pela rua.
Acima, de branco, Louisa. Abaixo, Dona Catherine.
Por recomendação médica, em virtude da excelente qualidade do ar de Teresópolis, foram morar na pequena, mas aconchegante casinha da Dona Ernestina, a curumim Louisa Pimental, sua irmã e sua mãe Catherine Rostan.
Os nomes delas são diferentes porque Louisa e Catherine estavam mais para apaches do que para descendentes dos guaranis, como os demais indiozinhos do bairro. Isso porque elas nasceram nos Estados Unidos. Para se manter, Dona Catherine dava aulas de inglês no Colégio São Paulo, no CEM, No Yazigi e também para executivos da empresa Sudamtex.
O que faz destes ilustres moradores da Granja entre os anos 60 e 70 especiais, na verdade, é mesmo a histórica casa onde moravam. O dono à época da Casa da Portaria era o psiquiatraDr. Valdemar Almeida, que, dizem, tinha verdadeira paixão pela criação de abelhas (apicultura).  
Abelha Italiana
Quando foi morar neste local, o médico, além da sua esposa, D. Ernestina, levou também suas abelhas italianas. Dr. Valdemar era um homem muito bom e bastante zeloso com sua criação de abelhas. Ele sempre procurava melhorar a qualidade do mel que produzia ali mesmo no quintal da sua casa na Granja Guarani. Ouvindo dizer que as abelhas africanas eram mais produtivas e resistentes, ele resolveu cruzar as duas espécies, africanizando assim a sua colméia. Quando ele morreu, as abelhas foram abandonadas a própria sorte. 
Abelha africana
A pequena Louisa e sua mãe não davam muita importância à colméia, formada por mais de 10 caixas que ficavam enfileiradas sobre pedestais feitos de trilhos de trem, nos fundos do grande quintal da casa. A curumim lembra que os adultos avisavam com freqüência para que ela mantivesse boa distância das abelhas.
Mas devidamente “guarinizada” a “apachezinha” certa vez, aprontou uma arte digna dos seus vizinhos do Largo do Machadinho. Numa tarde de verão, Louisa, duas amigas e sua irmãzinha brincavam no quintal próximo ao galinheiro. De repente, um delicioso e forte cheiro de mel atraiu as indiazinhas para perto da colméia. O mel escorria e pingava no chão.
As curumins, então, pegaram uma grande vara de bambu, cutucaram uma das caixas, e aí começou o pesadelo. A parte de cima de uma das caixas se desprendeu e caiu no chão. Começou um barulho de “zum-zum-zum”, que foi aumentando até ficar ensurdecedor. Rapidinho as quatro saíram gritando “enxame! enxame!”. 
 Na disparada em direção a casa, esperta, Louisa ainda lembrou de soltar os quatro cachorros da família e todos se trancaram dentro de casa, fechando portas e janelas. Em questão de segundos, enfurecidas, as abelhas batiam nos vidros das janelas, e o ataque só terminou ao anoitecer, quando as danadas voltaram para a colméia.
Caixa de abelha
Quem mais sofreu com esse primeiro “estouro das abelhas”, foi a babá das curumins, Dona Júlia,  que ficou com o rosto irreconhecível e nem conseguia abrir os olhos, depois de levar muitas ferroadas. Dona Catherine teve que levá-la às pressas ao Pronto Socorro do Hospital São José, que era o mais perto. Ainda durante este ataque motoristas que entravam na Granja tiveram que abandonar os carros, e pessoas que passavam desavisadas pela rua também eram atacadas e saiam correndo abanando os braços em torno da cabeça. Um cavalo, amarrado na rua da frente, foi tão ferroado que tombou morto ali mesmo, ficando dias jogado, apodrecendo, até que um caminhão da prefeitura veio recolher a carcaça. 
Enxame de abelhas
Mas, o ataque das abelhas também teve um  lado positivo: o reumatismo da mãos, ombros e joelhos da babá, sumiu. O médico, mais tarde, disse que foi um benefício do veneno das picadas das abelhas e as indiazinhas ainda recolheram mais de quatro baldes de mel puro. 
A traquinagem rendeu para as curumins um bom castigo que durou alguns dias. Tempos depois houve mais um “estouro” da colméia, desta vez espontâneo, de proporções iguais ou maiores que o primeiro. Dona Catherine então decidiu que era muito perigoso manter a colméia na propriedade. O agente “qualificado” para acabar com as abelhas provocou outro “estouro”,  saiu correndo e nunca mais voltou. Finalmente, houve uma operação noturna, com auxílio de amigos, que acabou com o pesadelo da família “apache-guarani”.
Nestes estouros, as abelhas picaram todas as pessoas da casa, menos Louisa.

Anos mais tarde, morando no bairro de Santa. Teresa, no Rio, sem querer ela tocou a mão em uma abelhinha e levou sua primeira picada. Resultado, Louisa foi parar no hospital e descobriu que era extremamente alérgica ao veneno dos ferrões das abelhas. Se tivesse sido vítima das abelhas na Granja Guarani, talvez não estivesse hoje, nos Estados Unidos e no Brasil, contando essa história para os seus filhos.



Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG

--------------------------------------------------------------------------------------------------------

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 20 – (UM BAIRRO EM HARMONIA)

Como já vimos nos capítulos anteriores, os indiozinhos da Granja Guarani eram moleques e meninas muito unidos entre os anos 60 e 80. As discussões eram muito raras. Quando ocorriam, as intrigas eram resolvidas com um risco no chão e um curumim falando para o outro: “Se for homem cospe aqui!”. Um cuspia de um lado, o outro cuspia do outro. O primeiro fazia cara de mal; o segundo também. E, no final das contas, na maioria das vezes, a briga não passava de meia dúzia de palavrões. No outro dia os desafetos estavam brincando juntos de novo.
Há uma explicação, digamos, sociológica para a afinidade e a conseqüente convivência pacífica entre os moleques. Até os anos 80, a Granja praticamente teve o mesmo número de famílias que lá já estavam desde os anos 50. Na verdade, o bairro era uma “grande família” que vivia quase todo o tempo em perfeita harmonia.

Literalmente, a proximidade entre as pessoas vinha de dentro de casa. Casa de pobre, normalmente, tem mais gente do que espaço. Portanto, vivíamos grudados um nos outros em vários momentos do dia. As refeições eram sempre para todos na mesma hora, não importava se um ou outro não estava com fome. Se não comesse junto com todos, ficaria com fome depois.
Até mesmo na hora de dormir, em muitas casas, os meninos dividiam a mesma cama quando pequenos; o mesmo acontecia com as meninas. Os curumins deitavam em lados opostos da cama, ou seja, “um cheirando o chulé do pé” do outro. Só lá pelos 12 ou 13 anos é que ele conquistava o direito de dormir sózinho, a maioria das vezes no sofá da sala.
Também era bastante comum o entra e sai na casa dos vizinhos, Na verdade, com algumas exceções, todos eram da casa de todos. Se alguém chegasse na hora do almoço, por exemplo, um novo prato imediatamente era feito pela mãe do amigo. Na minha casa, eu só não liberava uma lata redonda de goiabada que usei como prato por longos anos, nem sei exatamente porque, mas, parece que a comida ficava melhor nela. Coisa de curumim pequeno.

Se a visita chegava no final da tarde, o moleque não saia sem lanchar. Todos ficavam próximo do fogão de lenha onde nossas mães fritavam bolinhos de chuva que eram polvilhados com açúcar e canela. Eu preferia uma espécie de panqueca frita feita com farinha de trigo e sal. Tudo era devorado com café com Leite C de saquinho (naquela época não tinha Longa Vida e o tipo B era muito caro).   
Nem todas as casas tinham televisão.
Então, claro, o uso era coletivo naquelas quer possuíam o aparelho. Quando a danada ficava fora do ar não faltava moleque para subir no telhado e virar a antena prá lá e prá cá até a imagem voltar. Os botões para tirar o chuvisco e para estabilizar a imagem (horizontal e vertical) só eram operados pelos mais velhos. As famílias se uniam para ver de tudo, desde os desenhos animados para os moleques, até as novelas para os mais velhos.
Antes da TV, as famílias se reuniam em torno das rádio-vitrolas para ouvir as
radionovelas, o futebol e até mesmo a Voz do Brasil. Quando não ouviam rádio, colocavam os discos de vinil para tocar. A Rádio-Vitrola da minha casa tocava também pesados discos de cera de 78 rotações. 
A união das famílias se dava também em muitas outras atividades diárias. Era comum, por exemplo, quando alguém ia à Várzea fazer a compra do mês no supermercado (Regina, Ensa ou ABC) trazer também uma listinha com pedidos de mantimentos feitos pelo vizinho. Se o carteiro aparecesse e não achava o dono da correspondência em casa, automaticamente ele deixava a carta com o vizinho.

E assim a vida ia seguindo. Só mesmo um curumim invocado para quebrar a harmonia com uma cusparada no chão perto do pé do amigo. Mas, o “Tô de mal!” não durava mais que algumas horas.

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG

--------------------------------------------------------------------------------------------------------


OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 21 - (O NATAL)


Garagem do Parnaso onde eram distribuídos os presentes
O dia de Natal era, sem dúvida, o dia mais esperado do ano pelos Indiozinhos da Granja Guarani, Pedreira, Alto e outros bairros vizinhos ou próximos do Parque Nacional.
A data especial era dividida em três partes distintas:
De manhã, os curumins acordavam cedo para receber presentes no Parque Nacional; à tarde era dedicada a brincar com os novos brinquedos; e, à noite, o tempo era reservado para a ceia e visitas aos vizinhos.
A casa de todos, por conseqüência, ficava cheia nesse dia. Cheia de gente, cheia de amigos, cheia de confraternizações, enfim, cheia de alegria.
O dia realmente era muito especial.
A ida ao Parque Nacional era totalmente diferente das vezes em que, no restante do verão, literalmente nos arriscávamos para furar o bloqueio dos guardas para tomar banho nas cachoeiras ou na piscina da área de proteção ambiental.
O Natal era o único dia do ano em que a administração do parque franqueava o acesso a todos pelo seu portão principal.
Por volta das 07h00 nossas mães nos colocavam de pé e, ninguém reclamava de acordar cedo no Natal.
A roupa era a melhor disponível. Éramos vestidos com os mesmos trajes da missa de domingo na Igreja Santo Antonio, no Alto.
O caminho até o Parque Nacional era feito à pé. No meio do trajeto, também diferente dos demais dias, no Natal não parávamos para colher e comer frutas que existiam em abundância no nosso bairro, como os morangos silvestres, a maçã royal, as amoras e as “azedinhas” (que só pouco tempo atrás descobri que eram Cambuci).
Ninguém pegava as frutas para não sujar a roupa.
O Dia de Natal era sempre ensolarado, mesmo assim, nem dávamos bola para a cachoeira de baixo ao lado da entrada do parque, e nem mesmo para a piscina no interior do parque. Todos estávamos mesmo era interessados no presente que iríamos ganhar.
A festa era sempre numa área coberta anexa ao prédio da administração do Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Havia um vão nesta estrutura que servia como garagem para os carros que prestavam serviço na área do parque. Era nesta garagem que a administração do parque distribuía um presente para cada criança da família, não importava o tamanho da prole. Os curumins formavam longas filas e o presente nos era dado por alguém vestido de Papai Noel, sempre sob o olhar carinhoso e sorridente dos administradores do Parnaso.
Os moleques, invariavelmente, ganhavam carrinhos, bolas e armas de plástico (naquela época não tinha essa neurose de que não é legal dar réplica de arma de presente para criança, comum e justificável hoje, por causa da escalada da violência). Já para as meninas sobravam as mais variadas bonecas, joguinhos de panela, entre outros brinquedos. Junto dos brinquedos, as crianças e também os adultos tinham direito à um lanche (normalmente cachorro quente e um copo de suco).
Até hoje tenho dúvida se a festa de Natal fazia parte da política do Governo Central que precisava tornar os duros militares mais simpáticos ao povo, ou se as doações eram fruto da generosidade dos administradores do Parnaso.
Passada a festa no parque e, de volta à Granja Guarani, depois do almoço, o bairro era tomado pela garotada e seus novos brinquedos, todos muito simples, de plástico, que duravam pouco tempo, mas de um significado inexplicável.
À noite era um vai e vem constante de uma família à casa da outra até altas horas. Os mais velhos consumiam o que sobrava da “ceia” da noite anterior, que acontecia depois da Missa do Galo; já os curumins ficavam pela rua brincando de “pique”, “queimada” e da inocente “pera, uva ou maçã”.


Cesar Rodrigues
Jornalista-Colaborador da AMAGG



--------------------------------------------------------------------------------------------------------


OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI - PARTE 21 - Dona Santinha


Capa do Vídeo sobre Dona Santinha
SET Produções - Diretor Leo Bittencourt
A grande aldeia da Granja Guarani entre os anos 60 e 80 também teve o seu Pajé. No caso, sua Pajé. Trata-se de Dona Santinha, também chamada de Dona Santa que praticamente pôs a mão sobre a cabeça após benzer todos os indiozinhos enfermos do bairro. Ela também orava pelos adultos e, o Poder da sua oração era tão forte que ultrapassou as fronteiras da Granja Guarani. Pessoas de várias outras cidades, inclusive distantes, procuravam Dona Santa em seus momentos mais difíceis. Anônimos e também famosos, como alguns artistas que também foram à sua procura na busca de sossego para o corpo ou para a alma.
Dona Santinha se considerava interlocutora de “Deus Nosso Senhor Jesus Cristo”, como ela mesma mencionava. Todos que algum dia a procuraram a definiam como um “Ser de Luz”.
Dona Santa morava numa casinha bem simples, num aclive entre a “Bica de Maria Cantária” e o Quiosque das Lendas (nome oficial do Mirante da Granja Guarani). Onde fica a casa da rezadeira? Perguntavam os forasteiros da aldeia. Fica logo ali, abaixo do Carramanchão, respondia qualquer indiozinho. O lugar tinha um pequeno altar, forrado com toalha branca, algumas velas, e muitas imagens de católicas penduradas na parede.
Conhecendo a história de Dona Santinha é possível compreender porque os indiozinhos da Granja Guarani escapavam ilesos de tantas travessuras que aprontavam, seja nas cachoeiras do Rio Paquequer que escorrega pela área do Parque Nacional ou na densa floresta da Mata Atlântica que abraça o bairro até os dias atuais. Só mesmo a proteção da Benzedeira da Granja Guarani para livrar os moleques do bairro dos perigosíssimos saltos nas cachoeiras e fazer com que eles não fosse picados por cobras ou se perdessem no mato que freqüentavam como o quintal de suas casas.
Dona Santinha curava de tudo, de pequenos a grandes ferimentos, do corpo e da alma. Se alguém perdia um ente querido e entrava em depressão, uma boa conversa com a rezadeira acalmava o coração de quem ficou e descortinava o caminho de luz para o que se foi. Se estava com dor de barriga, dor de cabeça, dor de ouvido, dor de dente, com bicho-de-pé, gripado ou resfriado, fosse o que fosse, o enfermo que sentava ao lado de Dona Santinha e ouvia com fé a sua prece, não tardava melhorar.
“Não sou eu que rezo! É Deus Nosso Senhor Jesus Cristo! Contava ela. Dona Santinha nunca aceitou um só tostão pelas consultas que fazia. No máximo aceitava um ou outro alimento para sua subsistência ou para dividir com quem a procurasse quando a dor de barriga era de fome.
Naqueles anos distantes anos 60, 70 e 80, profissionais médicos eram (muito mais que hoje) raros no sistema de saúde de Teresópolis. Os moradores da Granja Guarani só obtinham tratamento rápido em casos emergenciais nos pronto-socorros do Hospital São Jose ou da Casa de Saúde Nossa Senhora de Fátima. Caso contrário, tinha que amargar horas (após imensa fila na madrugada) para ser atendido no posto do INPS, que ficava no então distante bairro da Barra.  Sorte nossa que Dona Santinha estava aliá, há poucos metros, porque antes de procurar o “Doutô” a conversa era com a Pajé e, o problema só não era resolvido se não fosse da vontade de “Deus Nosso Senhor Jesus Cristo”.   

--------------------------------------------------------------------------------------------

Arnaldo Guinle
MORADORES ILUSTRES DA GRANJA GUARANI

Desde sua origem, a Granja Guarani sempre foi habitada por muitos moradores ilustres, embora nossos indiozinhos e seus pais não tivessem a exata noção disso. As terras onde hoje está o bairro, foram adquiridas no início do século passado pela Família Guinle, que tem origem francesa e, financeiramente, teve extremo destaque na história econômica brasileira. Os Guinle foram fundadores e diretores de vários negócios como a Companhia Docas de Santos, o Hotel Copacabana Palace, a Companhia Siderúrgica Nacional, e o Banco Boavista, entre outros. Também foi essa família um dos fundadores do Fluminense Futebol Clube e dona do Palácio Laranjeiras, hoje sede do Governo do Rio de Janeiro.
Arnaldo Guinle ergueu várias moradias na Granja Guarani e ainda mandou construir os dois principais pontos turísticos do bairro. O Quiosque das Lendas (Mirante) e o Lago Iacy. Também foi ele que a partir dos anos 40 loteou as terras da imensa fazenda dando origem ao bairro.
Anos mais tarde, os indiozinhos a que nos referimos até aqui, também foram contemporâneos de vizinhos de importância no cenário nacional. A bela casa com imenso terreno que era protegida por um muro branco, logo acima da escolinha do bairro, abrigava nada mais nada menos que o Dr. Togo Povoa de Barros, um intelectual, que, nos anos de 1958 e 1959 chegou a assumir o governo do Estado, após a cassação do então governador Miguel Couto. Além disso, ele foi jornalista do influente Jornal O Dia. Sua esposa, Dona Cotinha, tinha o hábito de levar recortes de jornais e revistas para alguns indiozinhos do bairro, vizinhos seus, para checar se os moleques estavam mesmo aprendendo algo bom na escola. 
togo Povoa de Barros

Na esquina imediatamente abaixo da escolinha, havia a Casa dos Dois Ipês, do também jornalista Antonio Azevedo, que atuou no influente à época Jornal do Brasil. Esse não era muito simpático com os moleques, porque achava que a gurizada falava palavrão demais e não gostava que suas três filhas ouvissem. Por conta disso, ele mandou plantar eucalíptos em um campinho de terra batida onde os curumins jogavam futebol ao lado de sua casa, e onde hoje se encontra a unidade do programa de saúde da família no bairro. 
De nada adiantou porque os moleques jogavam bola no lugar do mesmo jeito, driblando os adversários e os eucaliptos. Apesar de ranzinza, o jornalista era preocupado com o bem estar da comunidade. Tanto que foi ele quem organizou um movimento social que culminou com o calçamento da Alameda Maués, uma das principais ruas do bairro, com os paralelepípedos que estão lá até hoje. Ele arrecadou dinheiro de quem podia pagar, porque, naquela época, a prefeitura pouco ou nada investia na Granja Guarani.
Nos duros anos da ditadura, a Granja também abrigou dois militares influentes. Um chamávamos de “Almirante” e o outro de “Comandante”. Não sabíamos exatamente seus nomes, reais patentes e força armada que serviram. Sobre o primeiro, que era muito discreto e morava na parte alta da Granja, desconfia-se que tenha assumido cargo de primeiro escalão no Governo do presidente Juscelino Kubistschek de Oliveira. Pelo sobrenome, Matoso Maia, e com base no que dizem os moradores mais antigos da Granja Guarani, este militar deveria se tratar do Almirante que chegou ao posto de ministro da Marinha de 1958 a 1961
O Outro militar, que chamávamos de “Comandante”, morava na conhecida Casa Azul, logo acima do espaço do bairro que foi ocupado pelas famílias proletárias. O “Comandante”, ao contrário do “Almirante” não se escondia e gostava de mostrar poder. Também teria assumido cargo importante na área de Segurança do Governo do Estado do Rio de Janeiro, e, igualmente pelo relato dos moradores antigos deveria se tratar do Capítão da Aeronáutica, Antonio Farias. 
No final dos anos 70, o “Comandante” mandou fazer um aterro em sua área. O serviço foi mal executado porque não possuía um muro de contenção. Após uma chuva forte, toneladas de terra deslizaram para a rua debaixo da sua propriedade, alcançando as casas humildes que ladeavam a “Bica da Maria Cantária”, causando a morte de três pessoas de uma mesma família. Se o acidente ocorresse nos dias atuais, o militar certamente teria que pagar pesada indenização aos atingidos pelo deslizamento. 
No final da vida, já de coração mais mole, o “Comandante” mostrou preocupação com a preservação do Quiosque das Lendas e tentou anexar o patrimônio à área da Casa Azul, que fica bem ao lado. Como era bastante severo, se tivesse conseguido comprar o Mirante (e isso só não foi possível porque os proprietários de então não tinha documentação regularizada do imóvel), quem sabe, hoje, o quiosque não estaria agonizando por causa da ação de vândalos. Ao lado da piscina da sua propriedade, ele também mandou construir uma quadra de futebol de salão e deixava os curumins jogar bola no seu quintal.


João Saldanha

Além dos citados, a Granja Guarani foi também moradia fixa ou temporária de muitas pessoas famosas. Lembro do comentarista, jornalista, radialista e ex-técnico da Seleção Brasileira de futebol, João Saldanha, cuja família mantinha residência próxima ao Lago Iacy. Aliás, o Iacy, é mais conhecido pelos moradores mais antigos do bairro como Lago do Saldanha, exatamente por causa dessa propriedade. 
Quem também morou vários anos no bairro foi o escritor, teatrólogo, cineasta e ator Domingos de Oliveira. Nos anos 70, ele usou uma bela casa na Estrada do Araken para escrever roteiros de cinema e teatro, além dos então famosos “Casos Especiais” que iam ao ar pela Rede Globo. Domingos de Oliveira tinha dois filhos, Igor e Frederico, que eram muito ligados aos “Indiozinhos da Granja Guarani”. Em parte do período que freqüentava o bairro, o escritor foi casado com a famosa atriz Leila Diniz que algumas vezes era vista nesta casa na Granja Guarani.

3 comentários:

  1. Gente eu nasci na Pedreira em 1967 o por La fiquei até 1981, passei por tudo isso narrado na historia, parece ate eu contando como foi minha infância na Granja guarani, adorei a matéria parabéns.

    ResponderExcluir
  2. Estudei na escolinha, minhas professoras eram Dona Ana , Maria Helena e dona Nilza hoje Esposa do ex Vereador Walter Patola, pesquei no lago do Comary peguei muita rã no lago do Saldanha, cassei passarinhos nas matas, joguei bola do gude e soltei muita pipa, eu morava exatamente na rua da mina que hoje tem o nome de Alameda Arnaldo Guinle, apesar de muito pobre vivi tudo isso intensamente.

    ResponderExcluir
  3. Achei muito legal o post! Nasci aqui na granja em 1998 e sempre morei na Alameda Curupiras, ultima casa da rua e achei muito legal as lendas sobre as criaturas e tudo mais! Muito legal essa iniciativa. Já sei que nao posso mais andar a noite por aqui hahaha

    ResponderExcluir